O Filósofo e o Lobo - Mark Rowlands


De vez em quando surgem oportunidades de leituras inusitadas, livros que eu jamais compraria mas que acabam em minhas mãos, e inevitavelmente deixam uma mensagem. O Filósofo e o Lobo, do filósofo Mark Rowlands, publicado pela Objetiva está entre eles, na verdade eu nem sequer sabia da sua existência, e mesmo quando soube o que eu esperava deste livro não foi o que eu li. Surpresas que a vida trás.

Mark era um jovem professor universitário quando se deparou com um anúncio de venda de filhotes de lobo, o que era para ser uma visita descompromissada acabou com um filhote, Brenin, um lobo destruidor de lares que transformou para sempre a vida deste filósofo, a ponto de obras nascerem, e um novo homem surgir. A partir desta relação Rowlands narra sua estória com inserções da filosofia de uma relação que de normal não teve nada, mas que muito tem a ensinar!

Mark era um jovem comum que dava aulas em uma universidade, participava do time de rugbi e de festas com muita bebida e mulheres. Sua vida muda quando ele resolve comprar Brenin, este lobo puro dono de uma personalidade única, isto porque ele não podia ficar sozinho em casa, já que tinha uma tendência a destruir tudo (logo em seu primeiro dia em casa ele comeu a tubulação do ar condicionado). Com isto ele estava em todos os locais que Mark ia, como os jogos do time de rugbi, as aulas na universidade e inúmeras corridas, corridas estas que os dois faziam em grande cumplicidade.

Ao mesmo tempo que o lobo se tornava civilizado, o homem se tornava lobo. Isto porque com o tempo Mark se isolou mais e mais do mundo, a ponto de sair da universidade e se isolar com seus cachorros e Brenin, e só escrever. A relação que ele estabeleceu com o lobo foi muito peculiar, e é narrada em detalhes em primeira pessoa pelo autor, que inicialmente soa um pouco chato, mas a medida que consegue expor seus sentimentos e detalhes da convivência de ambos nos cativa.

"As vezes é necessário deixar que o lobo dentro de nós se manifeste, silenciar a tagarelice incessante do primata." (pg. 17)

O livro é conduzido pelo que Rowlands aprendeu na sua vida com Brenin, organizado em torno das lições que aprendeu, enfocando os acontecimentos relacionados com os pensamentos que o autor queria desenvolver. Inicialmente seu foco se dá muito na diferenciação de lobos e de cachorros, ele explica em detalhes porque embora da mesma linhagem eles sejam distintos em comportamento, e confesso que esta parte me cansou um pouco. Mas uma vez que ele se fez claro, e ele focou na relação dos dois, e trouxe conceitos da filosofia para ilustrar suas conclusões a narrativa ganha graça, e profundidade. Sem que a filosofia canse, já que ele não se demora muito nela.

O conceito que mais me despertou atenção foi o de que os homens são seres temporais que vivem o presente lembrando do passado que já não existe e projetando o futuro que ainda não aconteceu, logo podemos dizer com segurança que raramente de fato vive o presente. O passado que recordamos e o futuro que ainda não aconteceu molda de forma decisiva o aqui e agora. Enquanto que o lobo é um ser do momento, ele não tem passado ou expectativas do futuro, ele vive o momento presente intensamente, e são momentos assim que são para os homens lembrados como momentos bons, mesmo que quando vividos sejam experienciados como ruins.

Para se referir aos seres humanos o autor usa o termo primata, e esta alma símia é gananciosa, pois o importante é ter, já que valoriza em termos do que possui, já para o lobo o mais importante não é possuir, ou quantas coisas ele tem, mas sim ser certo tipo de lobo. Esse discurso do que importa é ser e não ter já é um pouco batido, mas ele o aborda sobre outro enfoque quando evoca o ponto de vista do lobo.

Ao fim do livro é no mínimo interessante perceber quanto o autor se deu conta de que suas lembranças quando vivia apenas com o lobo e suas cachorras tinha um ângulo de matilha, ele praticamente não se lembra dele como indivíduo, apenas como membro desta matilha que o tocou profundamente. E como tudo que transforma o fez sofrer, mas também crescer. Hoje ele é um homem bem sucedido do ângulo capitalista, não bebe mais como antes, e tem uma família, mas carrega dentro de si o que aprendeu, e foi o que compartilhou nas páginas de seu livro, que ora soava como um livro de filosofia, ora como um livro de memórias de um bêbado andarilho.

"Às vezes tenho uma sensação das mais estranhas: eu era um lobo, e agora sou apenas um labrador bobo. Brenin representa para mim uma parte da minha vida que já não existe. É uma sensação ambígua. Fico triste por já não ser o lobo que era. E fico feliz por já não ser o lobo que fui. O mais importante porém é que fui um lobo." (pg. 208)

O filósofo e o Lobo é um relato de uma estória de amor verdadeiro entre um lobo e um homem, onde a troca era genuína e desinteressada, são lições de como viver uma vida mais verdadeira e consciente. É inspirador para transformar, e nos trazer para o presente, não no passado, nem o futuro, o simples presente sem preocupações, apenas com a brisa do dia, um bom prato de comida ou uma corrida sem hora para voltar!




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A Poção Secreta - Diário de uma Garota Alquimista #01 - Amy Alward


Quando o assunto são livros eu gosto de quebrar a cara e ser surpreendida. Porque eu achava que sabia o que esperar do livro A Poção Secreta, escrito pela inglesa Amy Alward, publicado pelo selo Jangada, já que suas primeiras páginas seguiam o padrão infanto-juvenil de fantasia, mas eis que tudo toma um rumo diferente e eis que ele não é o que eu esperava,  pronto essa é a diversão de um bom livro!

Samantha Kemi é uma aprendiz de alquimista que é surpreendida por um pedido inusitado: participar de uma caçada para encontrar uma poção- antídoto que curasse a princesa do Reino de Nova que acidentalmente tomou uma poção do amor e apaixonou-se por si mesma. Ela vê na Caçada Selvagem uma oportunidade para reerguer a loja de poções da família além de orgulhar seus ancestrais. Para fazer sua poção ela terá que enfrentar perigos além das fronteiras de Nova em zonas selvagens, além de uma corporação tecnológica que produz poções sintéticas. Mas seu pior inimigo talvez seja algo que ela jamais imaginou, seu próprio coração, ela será capaz de resistir a ele?

Alward escreveu sua narrativa em primeira pessoa nos capítulos narrados por Samantha, alternados por outros escritos em terceira pessoa sob a ótica da princesa Evelyn. O trabalho gráfico da editora é lindo, as texturas da capa e a diagramação transmitem a doçura do livro. E eis um pequeno engano que isso trás, eu achei que o clima do livro seria assim fofinho e leve, mas eis que existe muita aventura e ação ao longo da narrativa. Muitos lugares são visitados, diversas criaturas surgem como sereias e unicórnios, e tudo menos o óbvio estão entres os parágrafos.

O mundo construído pela autora parece seguir o padrão medieval quando a realeza é evocada, mas não se engane, ao mesmo tempo que tradições que rementem a essa época são narradas temos também a tecnologia com celulares e computadores, mesclados ainda com magia. O que pode até soar bagunçado, mas não é, a autora soube juntar todos estes elementos de forma a parecerem que sempre existiram juntos. Embora ela tenha uma crítica a tecnologia já que esta fez com que poções sintéticas existissem e deixassem de ser orgânicas. Este aspecto é trabalhado através da família Kemi que ainda persiste em sua pequena loja em fabricar estas poções de forma tradicional, e com isso sofre com falta de clientes por ficar para trás.

Zain Aster é o melhor amigo da princesa, e também herdeiro da corporação Zoroaster. E por boa parte da trama não conseguimos saber para que 'lado' ele trabalha, se tem de fato um bom coração que não concorda com os feitos do pai, ou se apenas esta simulando para ganhar a caçada. Esta resposta surge apenas nas páginas finais.

Sam sonha estudar na universidade, mas como única herdeira do conhecimento alquímico do avó, e diante do pouco dinheiro da família, ela aceita ficar trabalhando na loja enquanto todo investimento fica na sua irmã, que é uma talentosa, ou seja, possui magia. Quando a caçada surge ela vê a oportunidade de ganhar dinheiro e ajudar a família, mas mais que isso de sair da loja e conhecer o mundo que tanto anseia. É muito inteligente e inocente, seu pensamento rápido aliado ao conhecimento salvam tanto sua própria pele quanto das que a cercam.

A família Kemi é bem interessante, o avô tem um forte ranço do passado com os criadores das poções sintéticas, fato este que depois Sam deve explorar para conseguir vencer; a irmã é uma jovem muito doce que embora sempre protegida é capaz de coisas que nem ela sabe; já os pais apoiam tudo que a filha decide fazer, e acreditam cegamente em seu talento.

Kirsty é uma coletora, ou seja, ela coleta os ingredientes necessários para as poções. Ela é quem leva Sam para o mundo atrás dos possíveis ingredientes para o antídoto. É destemida, não tem medo do perigo ou da dor. Acredita sem dúvidas que Sam é capaz, alias que é a única capaz de fazer esta poção. Já Anita é a melhor amiga de Sam e também está na caçada, embora seja uma concorrente coloca sua amizade acima de tudo.

Existe um pequeno romance, e é ele quem vai de fato auxiliar Sam com a poção, afinal como fazer um antídoto para uma poção do amor sem nunca ter se apaixonado? É muito delicado como cada ingrediente encontrado é remetido a um item do amor.

A Poção Secreta é uma aventura por lugares mágicos e sentimentos verdadeiros, é sim uma fantasia, mas também é um leve crítica sobre a tecnologia acima das tradições e natureza. É sutil, delicado e envolvente, como uma poção do amor, a leitura vai nos envolvendo, e quando terminamos estamos nada mais do que apaixonados por esta estória neste mundo que porque não poderia ser o nosso?!

Esta série ainda conta com mais dois livros, A Poção Perdida e A Poção Mortal, todos publicados aqui no Brasil.

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As Sombras de Longbourn - Jo Baker


Quando li a sinopse de As Sombras de Longbourn, da autora Jo Baker, publicado pela editora Companhia das Letras eu não hesitei em querer lê-lo, afinal a Inglaterra no século XIX tem grande fascinação em quem vos escreve!

No condado Hertfordshire, em Longbourn, Sarah é uma empregada da família Bennet desde que seus pais faleceram, embora seja dedicada ao seu trabalho que a toma o dia inteiro não deixa de sonhar em conhecer o mundo, especialmente Londres. Após a chegada de um novo empregado em uma casa vizinha, ela passa a nutrir mais do que sonhos, assim desejos e atitudes sobre o que ela deve fazer para ir além dos muros da casa começam a nascer dentro de sua alma.

Inspirado diretamente na obra Orgulho e Preconceito ocorre ao mesmo tempo que a mesma, entretanto acompanhamos os acontecimentos sob a perspectiva dos empregados da família Bennet. Este dado porém não chegou ao meu conhecimento antes que eu começasse o livro, logo eu acredito que não ter lido Orgulho e Preconceito faz com que eu perca uma parte da beleza da estória. Sim eu assisti ao filme, mas honestamente fazem muitos anos e me lembro pouco. Acredito que quem tenha lido o livro deva aproveitar o livro muito mais.

Sarah é uma jovem muito inocente que sonha com lugares melhores porque sofre na casa em que está, não por maus tratos como era comum na época, porque tanto a família Bennet como os demais empregados a tratam bem, mas pela dureza de seu trabalho que maltrata o corpo e cansa seu espírito. Logo ela sempre sonha em conhecer outras cidades, entretanto com o passar do tempo ela começa a questionar se seu sonho é algo belo apenas em sua mente.

O casal Hill são os empregados mais velhos, a Sra. Hill é a governanta, e tenta ter controle completo de tudo que acontece na casa, junto a Sarah e Polly. Ela as tem como filhas, e tenta sempre transmitir o melhor para ambas. O Sr. Hill já está velho e doente, por conta disto acaba sendo substituído em algumas funções por um novo funcionário, James, um jovem misterioso que se mostra muito prestativo, mas que desperta sentimentos estranhos em Sarah.

James têm segredos em seu passado, mas os guarda fundo, tentando ser o mais discreto e calado possível. Este comportamento desperta em Sarah desconfiança e ao mesmo tempo mais atenção do que o normal dela por ele. Este casal até desperta alguma torcida, mas em geral é um pouco passivo demais.

A família Bennet aparece como coadjuvantes, são muito citados e tudo orbita ao redor deles, mas pouco sabemos do que realmente está acontecendo com eles, isto porque já está detalhado em Orgulho e Preconceito, e tudo sobre eles é como espiar pela fresta de uma porta. Mesmo assim conseguimos perceber que a família trata bem os empregados e tem consideração pelos mesmos.
A narrativa em terceira pessoa de Baker é muito similar a de Austen, embora não tenha lido Orgulho li Razão e Sensibilidade. Ambos tem ritmo lento, focados no dia a dia dos personagens, sem grandes ações ou eventos. Ambos livros não fluem, sua leitura é demorada e as vezes um pouco cansativa, pois ela detalha bastante o trabalho dos empregados, e bom trabalho doméstico não é um tema muito interessante de ler não é? Mas Baker é um pouco mais descritiva do que Austen, o que nos possibilita uma melhor perspectiva do ambiente.

A ideia de Jo de criar está estória em cima de uma dos livros mais aclamados do gênero é muito interessante, e arriscada, mas pensando na obra de Austen acredito que ela tenha sido bem sucedida. Mas para gostar de uma você deve ter gostado de Austen, não porque uma foi inspirada na outra, mas porque elas trabalham o mesmo clima intimista da vida caseira da época.

As Sombras de Longbourn é agradável pelo seu cenário, mas não inspirou tanto com sua estória. Não tem exatamente problemas salvo seu ritmo lento, e possivelmente deva agradar muito pessoas que gostem deste estilo narrativo. Sigo insistindo nestes livros porque na pior da hipóteses são páginas em mais páginas na Inglaterra, e isso jamais vai ser de todo ruim rs!



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Anjo Mecânico - Cassandra Clare


Londres Vitoriana...século 19...1878...somos levados para o mundo dos caçadores da sombras, Nephilins cuja missão é proteger o mundo dos demônios e seres do submundo. Essa é a atmosfera de Anjo Mecânico, primeiro livro da série As Peças Infernas, da autora Cassandra Clare pela editora Galera Record.

Tessa Gray tem dezesseis anos e depois da morte da tia em New York e a convite do irmão Nathaniel segue para Londres, onde é recebida por duas mulheres estranhas, as irmãs Black e Dark que a levam para uma casa onde a mantém como prisioneira. O que Tessa não sabia era que elas tinham um interesse específico sobre ela, no poder que até então ela não sabia possuir. Quando o jovem Will a resgata ela passa a buscar por seu irmão e tentar entender o que é, a jovem se vê diante de um mundo que nunca mais será igual.

Cassandra Clare despensa apresentações, é uma autora excelente que escreve de forma viciante e apaixonante, sua outra série Instrumentos Mortais, que sou fã é assim, e com Peças Infernais não é diferente. O modo como ela cria a trama que vai aos poucos se ligando é incrível, assim como as pontas que ela deixa para o próximo volume.

Tessa Gray é uma personagem teimosa, depois de ser enganada ao chegar em Londres não acredita em nada que lhe dito pelos caçadores das sombras, isso chega a ser irritante na personagem que passa mais tempo desconfiando do que descobrindo os fatos. Mas no geral é uma menina normal que se vê diante de uma nova vida que terá que se acostumar, além da descoberta do amor cujo qual nunca dispensou atenção antes. Diante de um problema ela age, não é mocinha, mas protagonista de sua vida mesmo diante do desconhecido.

Will Herondale é um personagem misterioso, tem um passado misterioso que esconde. Lembra muito o jeito do Jace da série instrumentos mortais, talvez porque ambos não gostam de falar sobre seu passado e sobre suas famílias, mas Will é mais rude e irônico. É um personagem com personalidade forte, que não se dobra diante de ninguém. Seus sentimentos só vem a tona quando lida com seu melhor amigo: Jem.

Jem Carstairs é frágil no que diz o seu corpo físico, e a explicação para isso é ótima! Mas sua mente é afiada e não se faz de coitado pelo sua condição. Dono de uma personalidade gentil e empática transmite segurança para Tessa em muitos momentos. É a pessoa que traz paz e as palavras certas em qualquer momento.

Os personagens secundários são ótimos, a diretora do Instituto de Londres, Charlotte me despertou curiosidade acerca de sua história, e seu companheiro Henry é um personagem doidinho que trás humor e leveza quando surge.  Jessamine é amarga, e só pensa em arrumar um modo de viver uma vida normal, nem que para isso faça coisas não muito legais, acaba por ser a menina mimada que esperamos que quebre a cara. O vilão, O Magistrado, é ardiloso e move suas cordas de forma discreta para alcançar seus objetivos, entretanto o real motivo de seu interesse em Tessa ainda não foi explicado, e isso foi o único fato que me irritou um pouco na narrativa.

O foco narrativo é bem centrado nos caçadores das sombras, embora até tenha vampiros e o famoso feiticeiro Magnus Bane dê o ar de sua graça, não existem muitas cenas e explicações para os demais habitantes do submundo. Como trata-se de uma trilogia independente essa ausência de aprofundamento nas demais criaturas pode fazer falta para novos leitores deste universo.

Narrado em terceira pessoa, o livro conta com a diagramação simples. A capa segue o mesmo padrão brilhante dos demais livros de Clare. Se a resenha despertou a vontade de ler o livro fica uma dica: leia primeiro os três primeiros livros de Instrumentos Mortais: Cidades dos Ossos, Cidade das Cinzas e Cidade de Vidro. A série faz mais sentido nessa ordem e tem uma melhor introdução no mundos caçadores das sombras, mas Anjo Mecânico pode ser lido separadamente não depende da outra série, já que se passa muito antes da série Instrumentos Mortais. O interessante é que conseguimos traçar uma linha genealógica para certas famílias de caçadores das sombras que surgem no futuro.

Com homens máquinas, uma Londres chuvosa e muito mistério no ar, Anjo Mecânico é um steampunk como se deve muito vapor, magia e vestidos.  Os demais livros da trilogia Príncipe Mecânico e Princesa Mecânica já foram todos publicados.


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Os Elementais - Dr. Franz Hartmann


Já disse aqui em alguma resenha (disse? rsrsrs, memória de peixe!) que sou apaixonada por elementais não? Os famosos espíritos da natureza são bastante utilizados em romances fantásticos, mas além de amá-los em romances de ficção eu estudo e leio tudo que encontro sobre eles sob o ponto de vista ocultista/espiritualista. Nessa minha busca contínua eu esbarrei com o livro Os Elementais, do autor Dr. Franz Hartmann, pela editora Ícone.

Essa obra foi traduzida pela primeira vez do original (publicado em 1894) em alemão, e é um apanhado feito pelo Dr. Hartmann sobre os elementais através de uma ampla visão em suas distintas manifestações. Mas ao contrário do que parece ele não se detêm apenas nesses seres, ele trabalha também os resíduos dos pensamentos humanos, resíduos de espíritos já desencarnados, espíritos de desencarnados e etc, fazendo uma diferenciação entre eles.

A partir de um olhar teosófico o autor evoca diversos autores como Paracelso (um médico, alquimista, físico, astrólogo e ocultista suíço-alemão do século XV) e Helena Blavatsky (prolífica escritora, filósofa e teóloga da Rússia, responsável pela sistematização da moderna Teosofia e co-fundadora da Sociedade Teosófica do século XIX) para explicar diversos conceitos do hinduísmo a respeito de todas essas diferenças de manifestações.
Entretanto não sei se por conta da tradução, ou se o autor que quis assim, eu me vi muito confusa entre todas as coisas que explorou. Na verdade compreendi o que ele quis explicar em cada uma, como por exemplo, o fato de que nem toda assombração trata de um espírito desencarnado, mas que também pode ser apenas uma energia remanescente do morto, sem inteligência.

Mas quando ele começa a usar os termos 'espíritos' e 'elementais' a coisa se confunde. Ele usou estes termos para várias manifestações diferentes, e não sei dizer se isso é  o ponto de vista teosófico a respeito destes ou  uma confusão do autor. Os termos hindus também não ajudam muito, mas possibilitam a busca posterior a respeito dos seres citados, o que já vale muito.

O livro conta com dois prefácios, um da tradutora e um do editor, fato que não compreendi visto que a tradutora praticamente repetiu o que o editor já havia dito. Quanto ao trabalho da editora a capa é bonita, a diagramação conta letras maiores do que o normal  e facilitam a leitura.

Curto e objetivo o livro tem uma narrativa bem rápida, mas não é de fácil assimilação, mesmo para os que estão acostumados a obras sobre estes pequenos grandes seres. Com frases curtas, mas com profundidade em seu conteúdo, Os Elementais é o tipo de livro que deve ser relido de tempos em tempos para retirar o conteúdo das entrelinhas. No meu caso que faço apanhado sobre o assunto só a citação de autores, pensadores e espiritualistas que comentaram o assunto já é fonte bibliográfica que vale o livro.

Não é um livro para leigos, se você nunca leu nada a respeito espere para lê-lo. Se você já leu alguma coisa a respeito, mas não tem a menor ideia do que seja o hinduísmo, busque um pouco a respeito antes da leitura. Indico o livro para os estudantes de ocultismo que busquem aprofundamento.

No fim o livro pouco trabalha com os elementais propriamente ditos, mas faz um apanhado muito importante para compreensão dos mesmos. Senti falta de mais detalhes a respeito deles sob a visão hindu, mas isso é compreensível visto que o livro na verdade foi publicado como um artigo breve. Os Elementais é pequeno em tamanho, mas enorme em conhecimento, e é obrigatório para os que estão buscando desvendar o véu de Ísis!

(Franz Hartmann (1838-1912) foi um célebre escritor teosófico alemão, estudioso das doutrinas de Paracelso, Jakob Böehme e a Tradição Rosacruz. Foi discípulo de Helena Blavatsky na Índia. Posteriormente fundou a Sociedade Teosófica na Alemanha em 1896. Traduziu o Bhagavad Gita en alemão e escreveu numerosos artigos na sua revista Lotusblüten).




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A Inesperada Herança do Inspetor Chopra - Vaseem Khan

Desde que a editora Morro Branco apareceu eu espio seus lançamentos, e a lista de desejados da editora sempre cresce, alias se tem uma coisa que cresce em escala desproporcional é minha lista de leitura!. O escolhido da Morro Branco desta vez foi A Inesperada Herança do Inspetor Chopra, do autor Vaseem Khan.

Depois de muitos anos de serviço dedicado e integro o inspetor Chopra se vê obrigado a se aposentar precocemente, e em seu último dia de trabalho ele recebe duas heranças inesperadas, primeiro um caso de um jovem pobre que aparentemente morreu afogado e que ninguém tem interesse em investigar, e depois nada menos do que um filhote elefante. Através das populosas ruas de Mumbai, Chopra vai investigar os lugares que este jovem esteve e descobrir que este é um caso muito mais perigoso do que imaginava, ao mesmo tempo que em que aprender a lidar com um elefantinho que parece ser qualquer coisa menos comum!

Antes de dizer algo sobre a narrativa em si devo começar elogiando o trabalho da editora Morro Branco, que livro mais fofo, que trabalho gráfico delicado e bem executado! Desde a capa que reflete bem o clima do livro, a sua capa interna e marcador de páginas, tudo muito lindo com este pequeno elefantinho em tudo! Fiquei apaixonada por este livro fisicamente.

A narrativa de Khan foi feita em terceira pessoa em sua maior parte do tempo sob o ângulo do inspetor Chopra, os que não eram sobre seu ângulo eram sob o de sua esposa Poppy. A maior característica de sua escrita é a cultura indiana que aparece em cada página narrada desde seus costumes passados até como a Índia moderna se encontra. Khan consegue com suas palavras simples nos transportar para este país tão diferente do Brasil. Senti também que a medida que ele conta sua estória ele também trás um crítica a sociedade moderna, aos jovens que moram na Índia e que aderiram a modernidade deixando para trás os valores da cultura indiana, ao mesmo tempo que ele também questiona o status das castas e classes sociais.

Chopra é um homem certinho, daqueles que de tão certos geram piadas ao seu redor. A aposentadoria forçada não fez com que ele parasse, logo ele não hesita quando se depara com um caso de injustiça. Para resolve-lo ele terá que quebrar as próprias regras, e enfiar seus pés na lama em busca de pistas. Com a saúde frágil ele ousa mais do que deve, e isso me soou um pouco forçado, já que até então ele não havia quebrado regras para nada, e agora que não pode não só por princípios, mas por saúde ele as quebra. Algo no desenvolvimento do personagem escapou, e terminou estranho. Seu desfecho parece ter acontecido longe das páginas do livro, logo quando ele explica algumas de suas atitudes você sente que perdeu alguma parte de sua estória.

Poppy sua esposa embora siga os costumes é ao mesmo tempo entusiasta da modernidade, do que a televisão e as revistas ditam. É uma esposa dedicada, mas nunca pode dar filhos ao marido, o que gera seu maior trauma, e ao mesmo tempo medo que seu problema acabe fazendo com que o marido a abandone. Ela é um personagem leve, que vezes soava ligeiramente engraçada com sua tendência ao exagero e escândalo, mas senti falta de mais páginas com seu desenvolvimento, ela traria maior riqueza a trama.

Ganesha é o bebê elefante que Chopra herda do tio. Ao recebê-lo o tio envia uma carta dizendo que o bebê não é comum, mas é só com o tempo que o investigador começa a tomar a dimensão que este fato tem. O fato é que ter um elefantinho na estória deixa tudo mais doce e criativo, e claro demarca também a cara indiana que a trama tem. Ganesha é muito fofo, como um filhote deve ser!

O mistério da morte em si é interessante, mas têm falhas na linha do tempo, já que em determinado momento não sabemos nada sobre a verdade, e depois tudo nos é despejado de uma vez, como no final que é revelado com o inspetor conseguiu ligar todos os pontos do quebra cabeça. Acho que a falha é devida a inexperiência do autor que tem potencial para melhorar suas ideias, assim espero que sua sequência seja mais convincente.

Outro ponto que me incomodou foi a falta de explicações quanto a cultura indiana em si, fez falta notas de roda pé onde lugares, pessoas e costumes fossem explanados. Acho que o autor quando fez um livro para o mundo se esqueceu que o resto do mundo não sabe as mesmas coisas que ele sabe. Talvez a edição poderia ajudar com isso?

Este livro faz parte da série Agência de Detetives Baby Ganesha e no exterior têm outros quatro livros publicados, The Perplexing Theft of the Jewel in the Crown, The Strange Disappearance of a Bollywood Star, Murder at the Grand Raj Palace e Bad Day at the Vulture Club, mas ainda não soube nada de a Morro Branco continuar a série por aqui.

A Inesperada Herança do Inspetor Chopra é um livro leve para aqueles momentos que você quer uma leitura descomplicada. Nos imerge entre as cores e sons de uma cidade distante e exótica da qual apenas ouvimos falar mas nunca tocamos. É um passeio entre ruas sujas e ruas modernas, entre jovens ambiciosos e antigos que segue o costume. É um convite a terra de lorde Ganesha, Om Shri Ganeshaya Namah!


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A Espiã - Paulo Coelho


Quando comecei minha fase de leituras diárias e em sequência um dos autores que eu mais lia quando mais nova foi Paulo Coelho, por ser adepta de leituras espiritualistas ele me parecia adequado. O tempo passou e nunca mais li nada que saiu do autor até que surgiu a chance de ler seu último lançamento, A Espiã, publicado pelo selo Paralela da Companhia das Letras.

Mata Hari foi uma dançarina a frente do seu tempo, executando danças exóticas que terminavam com ela sem roupa. Com isso ela se tornou alvo da imprensa e de homens da alta sociedade com dinheiro e poder político. Com uma busca incessante por liberdade ela se envolveu em tramas da primeira guerra mundial, e pagou caro pela sua liberdade de moralismo e costumes.

Narrado em primeira pessoa na parte 1 pela própria Mata, e na segunda parte pelo seu advogado de defesa, a narrativa de Coelho não lembra as antigas leituras que fiz do mesmo, não sei se pela temática muito diferente ou por uma mudança de escrita, mas todos os fatos correram de forma rápida, objetiva, sem reflexões ou pensamentos além do raso. O objetivo do autor foi recontar a estória desta mulher que foi condenada a morte inocentemente por se envolver com as pessoas erradas no momento errado. Diversas fotos originais aparecem pelo livro, tanto de Mata como de jornais.

Mata, nascida Margaretha Zelle, nasceu na Holanda e escolheu casar para sair de seu país, mas com uma escolha feita pelas páginas do jornal não foi bem sucedida, o marido foi péssimo para ela. E como não conseguia se ver presa a infelicidade para sempre, ela abandona o marido e  a filha para ir para França e se tornar dançarina. Infelizmente o livro começa com sua execução, então não existe surpresa em momento algum de nada, apenas conhecemos como ela se tornou dançarina e se envolveu com espionagem.

Ela era uma mulher vanguarda, mas sem muita inteligência, já que acreditava que o sexo justificava para alcançar seus objetivos, sem se dar conta das consequências. Em meio ao estouro da primeira guerra ela não hesita em se meter na política, mesmo quando foi aconselhada a se afastar disto, tudo pelo capricho de voltar a Paris. Com isso ela não desperta empatia ou solidariedade, pois é teimosa e não resguarda a própria segurança. Não dá para torcer por alguém tão vaidosa como ela!

Nenhum personagem além de seu advogado passa tempo suficiente na trama para que conhecêssemos ou nos envolvêssemos. Tudo é muito focado na personagem, mesmo quando a mesma conhece ninguém menos que Picasso, tudo se passa de forma muito superficial. Porque não brincar um pouco com ícones tão interessantes?

O livro é interessante do ponto de vista histórico para conhecer os bastidores da época, como quando Mata chega a Paris e a Torre Eifel ainda não tinha seu nome, e ainda poderia ser desmontada. Mas do ponto de vista literário ou até biográfico (embora Coelho diga que esse não é seu objetivo) o livro é fraco. Mesmo que a estória já havia sido delineada pelos fatos reais, não é nada empolgante. Acredito que o autor poderia usar a estória para passar mensagens, seja quanto aos crimes comentidos na guerra, seja quando ao tratamento com as mulheres.

A sensação ao final deste livro breve é que li um artigo de revista sobre Hari, e não um livro, menos ainda escrito por um autor como Paulo Coelho. Um dia vou ler outro livro do mesmo e descobrir se este é um problema deste livro, ou do meu gosto literário que mudou.

A Espiã nos conta uma estória de vida que só por isso é interessante, mas sob minha ótica não representa a homenagem adequada a esta mulher extravagante. Faltou mais riqueza e mais detalhes. Faltou um mergulho nesta mente um tanto perturbada que levou uma mulher a morte por o que ela acreditou ser liberdade!



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O Incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de Peregrinação - Haruki Murakami

A medida que lemos certos autores não só podemos passar a gostar mais deles, mas também podemos passar a compreender a escrita do mesmo. Na narrativa de Haruki Murakami desde suas primeiras páginas tiveram um forte impacto em mim, mas é na medida que leio suas obras é que percebo cada um dos traços que estabeleceu as afinidades em mim. O terceiro livro que li do autor foi O Incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de Peregrinação, publicado pelo selo Alfaguara.

Tsukuru Tazaki é um solitário morador da cidade de Tóquio, que embora trabalhe com o que mais gosta, estações ferroviárias, é constantemente perseguido pelo seu passado. Após conhecer um mulher que está interessado ele se vê bconfrontado com os fantasmas do passado. Para tentar conseguir ir em frente Tsukuru vai revisitar cada um dos amigos do grupo que fazia parte quando adolescente para descobrir porque repentinamente foi expulso do grupo. A busca o levará mais longe do que imagina e a verdade o transformará.

O que mais gosto da narrativa de Murakami é a capacidade de narrar estórias que soam simples, mas que ganham tantas camadas e cores que nos levam para lugares não esperados, soando sempre únicas. Sua narrativa em terceira pessoa acompanha de perto os passos de Tsukuru compartilhando não só suas ações, mas se demorando nos sentimentos e pensamentos do mesmo. Com trechos no passado e trechos no momento atual do protagonista, ele constrói de forma muito rica o caminho que levou Tsukuru a depressão. Como em seus demais livros referências musicais são abundantes, aqui o enfoque fica nas músicas clássicas, embora o jazz não deixe de ser mencionado.

O autor ainda adiciona a trama trechos que soam com o realismo fantástico, quando Tsukuru têm sonhos que parecem gerar repercussões na realidade. No fim não sabemos se é delírio do personagem, ou se de fato foram mais que sonhos.

Tsukuru Tazaki soa como o típico japonês inteligente que é tímido e isolado, pelo menos ele se vê dessa forma, como alguém desinteressante e incolor (isso porque seus amigos têm nomes que traduzidos se referem a cores, menos Tsukuru que significa construtor). A dor que ele carrega é muito densa e profunda, e ele se menospreza tanto que ele é incapaz de pensar que o problema do grupo não foi gerado por ele. A medida que a verdade vem a tona ele tem que lidar com a dor novamente, ao mesmo tempo em que se percebe mais e melhor do que pensava.

Cada um de seus amigos vermelho, azul, branca e preta tem suas personalidades descritas por Tazaki, mas é na medida que ele encontra cada um deles é que percebemos quem cada um deles era no grupo. O fato que fez com que o grupo tomasse a atitude de expulsar Tazaki é forte, mas é somente na reta final do livro que isso se explica melhor.

Sara é a responsável por alertar Tsukuru que seu passado não permitia que o presente seguisse, e que ele tivesse relações verdadeiras. Infelizmente o desfecho dela com o protagonista não é apresentado, e ao meu ver foi a única falha do livro, já que na páginas finais o autor levantou fatos sobre a personagem que não tiveram explicação, menos ainda como ficou a relação dela com Tsukuru.

Uma grande personagem da trama é a cidade de Tóquio bastante explorada pelo autor. O personagem também viaja para Nagoia sua cidade natal e onde dois de seus amigos moram, assim como vai para a Finlândia atrás de Preta, esse trecho é muito interessante porque ele também explora as características do país. Murakami é tão bom em suas descrições que ele consegue transportar o leitor para os locais onde suas estórias são narradas.

O Incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de Peregrinação é uma narrativa que pode soar desinteressante para quem gosta de tramas com muita ação ou com eventos grandiosos, mas que vai agradar muito a quem procura estórias realizadas com tempo, pois Murakami fala sobre aquilo que incomoda, que faz sofrer e que muitas vezes nos faz ser como somos. É um trabalho rico em significados e delicadezas que trabalha luto, morte, amizade e esperança.

P.s por trabalhar com um protagonista que atravessou a depressão e que tem ainda forte dose de tristeza dentro de si, a leitura do livro pode ser um gatilho para alguns que tenham problemas com tristeza ou depressão.





 Avaliação











A Ilusão do Tempo - Andri Snaer


Seguimos com mais um livro da editora Morro Branco que arrebata o coração com sua beleza gráfica! Neste caso a capa de A Ilusão do Tempo, do autor islandês Andri Snaer Magnason, é uma imagem onde você passa muito tempo se perdendo nos detalhes e sempre enxergando algo novo.

O mundo está em crise, a economia não anda bem e a família da jovem Vitória decide que a melhor atitude a se fazer é esperar até que a crise passe, e para isso eles e o resto da população mundial resolvem entrar em grandes caixas pretas programadas para se abrirem quando tudo melhorar. Muitos anos se passam, e a caixa de Vitória se abre, mas ao contrário do esperado ela se vê sozinha em uma cidade invadida pela natureza. Sem saber o que fazer ela caminha pela cidade em ruínas, até que encontra uma casa repleta de crianças e uma senhora que insiste em contar uma estória de um rei que queria conquistar o mundo e que para isso também queria conquistar o tempo, e como ele fez isso? Utilizou uma certa arca que para o tempo, será que é apenas uma coincidência?

Magnason realizou sua narrativa em terceira pessoa de forma muito original, mas repleta de referências dos clássicos contos de fadas. É original porque conseguiu juntar em uma única estória, uma estória no mundo moderno com questões atuais como crise econômica e comportamento social doente, ao mesmo tempo em que narra através da estória contada pela senhora um universo medieval com características de contos, no caso em especial do conto da branca de neve. Seu enfoque é mais no realismo fantástico do que em uma fantasia propriamente dita, logo o que lemos soa mais verídico do que nunca.

Os trechos sob o ângulo de Vitória são pequenos, não conseguimos estabelecer uma ligação com ela ou os demais personagens que interagem com ela. O foco fica na estória narrada, a de Obsidiana que é uma jovem filha de um rei que perdeu a esposa, e com isso se tornou muito protetor com a filha. Para tentar superar a perda da esposa ele quer ter domínio do mundo e dá-lo para filha. Mas ele constata que ele não pode ter o mundo todo, e ter tempo para usufruí-lo, logo ele precisa conquistar o tempo. E é a partir desta busca que tudo começa dar errado em seu reino e na estória de sua filha.

Obsidiana vive em uma bolha, ela não conhece seu reino e nem o que é viver. Tudo que sabe é o que lhe é contato, e tudo que vê é o que a janela do castelo lhe permitem enxergar. Quando seu pai cria uma plano para burlar o tempo e ela torna-se parte dele surgem diversas críticas ao modo de vida do ser humano moderno. Embora se utilizando de ferramentas não diretas para os temas, quando a trama acaba você consegue assimilar facilmente a moral da estória.

As questões discutidas no livro são de importância vital. A empresa que cria as caixas pretas nos tempos modernos vende-as com o slogan de não ter que "passar mais por dias chuvosos, ou invernos", e apenas nesse trecho podemos pensar o quanto o ser humano deixa de aprender e viver a vida lamentando pelas mudanças de tempo, por exemplo, quando cada dia nos oferece momentos únicos e diferentes com novas lições que não devem ser condicionadas a nada além de nós mesmos.


Sombra e Ossos - Grisha #01- Leigh Bardugo

Desde a minha adolescência quando tive meu primeiro contato com a cultura russa fiquei apaixonada por esse país de pequenos detalhes, entre Matrioshkas e pratos típicos eu acho esse país gelado encantador! Quando vi então a capa de Sombra e Ossos, da autora Leigh Bardugo pela editora Gutenberg com uma referência a arquitetura russa já quis ele na minha estante, sem nem saber do que se tratava o livro (sim eu me apaixono por capas antes de saber da história!).

Nessa obra acompanhamos a saga de Alina Starkov uma orfã que trabalha como cartógrafa no regimento militar de Kavka e está prestes a realizar uma missão que deve passar pela dobra das sombras - uma faixa terra repleta de escuridão e criaturas conhecidas como volcras. Ela sabia que enfrentar a escuridão iria mudar sua vida, mas jamais imaginou que depois disso seria outra pessoa quando um volcra ameaça a vida de seu melhor amigo Maly. Depois de descobrir uma luz interior ela é enviada para Os Alta onde esperam que ela desenvolva seu poder, e ajude Ravka a retomar para luz este território de sombras. Alina conseguirá vencer suas próprias sombras e espalhar luz?

Alina é uma jovem que cresceu em um orfanato, assim ela tem o discurso clássico de quem teve privações e boas memórias com seu companheiro de orfanato. O primeiro e único amor é utópico e faz seus dias serem menos monótonos. Ela já estava bem inserida na rotina militar, então quando sua visita a dobra muda tudo ela passa boa parte das páginas seguintes negando sua verdade interior. Sua autoestima é muito baixa, assim ela não acredita ser digna e portadora de qualquer poder. Ela se acha feia e desinteressante.

A forma como ela conquista seu poder pode facilmente ser uma metáfora para o auto conhecimento, quantos de nós somos capazes de alcançar as estrelas e nos contentamos com apenas seu brilho distante? Quando Alina percebe sua verdade ela ganha não só o poder mas o amor próprio que se reforça no final da trama.

Maly, seu amigo e paixão, é um jovem talentoso que consegue rastrear qualquer coisa. Dono de um belo semblante ele desperta atenção de diversas garotas que Alina consideram mais interessantes que ela. Ele embora seja fiel a sua amizade com ela não deixa de aproveitar dos flertes e garotas que surgem no seu caminho. Sua virada na trama também muda a vida de Alina e toda direção da história.

O Darkling é um homem poderoso capaz de manipular as sombras, dono de um charme poderoso ele também é capaz de forma sutil manipular o reinado em Os Alta, e todos que cercam o reino. Se aproxima muito de Alina, e apresenta um mundo mais requintado a ela. Ele oferece um mundo aos seus pés, mas sem dar dicas ele me surpreendeu quanto a suas intenções.


Nossas Noites - Kent Haruf


Acabei de terminar a leitura do livro Nossas Noites do autor Kent Haruf, da editora Companhia das Letras, e estou me perguntando se um livro é bom porque nos gera prazer durante sua leitura, ou se ele é bom porque mesmo depois que terminamos ele fica dentro de nós revirando, trazendo questões que talvez nem estivessem no consciente. Faz apenas uma hora que terminei o livro, e me senti na necessidade de transmitir a sensação que ainda ecoa depois de seu término.

Louis e Addie são dois viúvos que moram na mesma rua na pequena cidade de Holt, no Colorado. Suas noites são solitárias e muitas vezes eles não conseguem dormir. Addie decide superar seus receios, e em uma visita a casa de Louis propõe a ele que passe suas noites na casa dela, para que assim ambos tenham com quem conversar durante a noite. Surpreso Louis aceita, e passa a frequentar a casa desta doce senhora, mas o que eles não esperavam é que a felicidade alheia incomodaria tantos as pessoas.

Haruf criou sua narrativa em terceira pessoa, onde os diálogos não tem marcação como aspas e travessão, no início isso pode atrapalhar, mas a medida que esta leitura progredi isso acaba desaparecendo. A leitura flui muito suave e doce, como as palavras do autor que tem delicadeza de nos trazer fatos tristes e marcantes da vida destes dois idosos sem que isso soe pesado. Mesmo no desfecho da trama que é triste, e foi o que me fez tirar um ponto de sua nota não só pelo conteúdo, mas pela rapidez dos fatos, onde uma situação muda o rumo da estória ele consegue transmitir a tristeza sem drama ou peso.

Louis é um professor aposentado que tem consciência dos erros que cometeu em seu passado e que inclusive marcam sua reputação até seu momento atual, e embora mais velho acredite que tenha feito escolhas erradas não é uma pessoa amarga, ao contrário, desde o momento em que se decide por aceitar a proposta de Addie ele se dedica a ela em suas atitudes e no seu coração. Ao longo do tempo ele se torna uma pessoa melhor, o tipo de homem que soa como um ótimo avó, que tem o que transmitir e ensinar aos netos.

Addie perdeu não só o marido, como uma filha quando esta era ainda uma criança, mas o fato não a torna uma pessoa triste, mas sábia. Ao contrário do que é esperado ela não se fechou para vida, tem vida de sobra e vontade de ter seus dias de velhice bem aproveitados, por isso ela busca Louis sem medo do que qualquer um pense de sua atitude. Ela soa até engraçada as vezes de tão prática que ela é, sem meias palavras ou atitudes dúbias.

Louis e Addie como casal são a coisa mais fofa! Eles se conhecem a medida que o tempo passa e as noites de conversa evoluem, pois embora sejam vizinhos, e a esposa de Louis tenha sido amiga de Addie, eles não tinham uma amizade anterior. Foi lindo ver a evolução do sentimento, da confiança e da atitude destes dois. O amor que nasce da convivência e da rotina é mais maduro e profundo do que aquele que passa pela paixão, e que logo pode se apagar.

Embora tenha apenas 160 páginas o livro é repleto de mensagens, sendo a principal a esperança. Já que o casal não acreditava que poderia viver uma relação novamente na idade deles. Quando eles assumem a relação ouvem outras pessoas na cidade que gostariam de ter a mesma oportunidade. Infelizmente nem todos tem a mesma opinião, e a pior deles fica por conta de Gene, o filho de Addie, traumatizado na sua infância, tornou-se uma pessoa amarga que não consegue ver a beleza das pequenas coisas da vida. A aparência é o mais importante, e ele não consegue ter uma boa relação com a mãe, menos ainda com o filho e a esposa.


Cinco Júlias – Matheus Souza


Quando li a sinopse desse volume fiquei bem interessada na leitura, que parecia trazer uma história diferente e incrível. Fiquei curiosa para saber mais sobre essas cinco Júlias, então por passei ele na frente na minha lista de leituras e agora venho compartilhar as minhas opiniões.
Na trama vemos que todas as mensagens enviadas, seja por e-mail ou por redes sociais, vazaram na internet, fazendo com que qualquer um tivesse acesso a todas conversas já trocadas por alguém. É nesse cenário que conhecemos um pouco mais sobre nossas protagonistas. E em uma noite bastante chuvosa no Rio de Janeiro, vários acontecimentos fazem com que elas acabem se conhecendo e resolvem viajar juntas para São Paulo, em um carro de autoescola, para lidar com tudo o que estavam passando.
Conhecemos um pouco mais de cada uma das Júlias. A 1ª é bastante criativa, ela quer rever seu pai depois de anos, a 2ª está tentando fugir de tudo, já que teve os seus nudes vazados, a 3ª traiu o namorado que ama, a 4ª é uma fofa que é fã de Taylor Swift e não se sente especial em nada, e por último a 5ª Júlia, que está passando por um momento depressivo, já que não teve o apoio de sua família em relação a sua sexualidade e isso fez com que ela ficasse bem mal.
Foi incrível poder conhecer um pouco mais sobre essas meninas tão diferentes, que acabaram se completando. Gostei bastante da narrativa rápida e leve, que consegue nos conquistar com personagens maravilhosos. Vemos também que o autor conseguiu trazer temas importantes como sexualidade, gordofobia, saúde mental, racismo, feminismo, aceitação, entre outros assuntos muito importantes que devem ser abordados e discutidos. E, apesar de ele não ter conseguido se aprofundar mais, achei bem legal a presença de todos eles.