O Retorno do Imperador - O Mundo de Quatuorian #02 - Cristina Pezel

Na grande maioria das vezes eu resisto muito a ler um segundo volume de uma série que começa ruim, na grande maioria das vezes eu nem sigo com a série, mas as vezes eu persisto em alguma, sabe-se lá porque algumas ganham uma segunda chance. A série O Mundo de Quatuorian não me cativou em seu primeiro livro, mesmo assim li o segundo volume O Retorno do Imperador, da autora brasileira Cristina Pezel, publicado pela editora Mundo Uno.
A situação em Quatuorian está caótica, após a tomada de poder duvidosa de Vorten, todos os locais têm sofrido ataques de animais, e a guarda do Imperador têm prendido todos que ousam levantar a voz. Para combater as trevas Terivan, Julenis, Vinich e seus mestres procuram cumprir a profecia e despertar um antigo imperador, o único capaz de combater o mal.
A narrativa de Pezel realizada em terceira pessoa melhorou em relação ao primeiro volume, mas ainda não conseguiu me agradar como uma fantasia me agrada. Parece que existe um vazio que nunca é preenchido, e para explicar ele tenho algumas teorias. Primeiro a autora realizou em dois livros curtos uma estória que normalmente qualquer saga levaria muitas páginas para narrar, assim tudo foi muito rápido e pouco explicado, faltando uma das características que mais me atraem em fantasia: explicações detalhadas e sem pressa, com tamanha riqueza que nos transporta para outros mundos. Infelizmente nesse mundo eu sempre me sentia correndo atrás da estória, em ligar seus pontos, e me lembrar quem era quem, e fazendo o que.

Segundo, a autora ainda tem um estranho modo de começar seus capítulos que parecem não levar a lugar algum, e que depois acabam mostrando qual eram seus objetivos. Todos os capítulos são curtos, nenhum deles se demora mais do que cerca de seis/ oito páginas, e junto a isso algumas páginas têm ilustrações e diagramação espaçada, ou seja, a estória é breve, muito breve para um universo que parece ter tanto a dizer.

O primeiro livro teve falhas quanto a um foco, o segundo parecia sofrer do mesmo mal em seu início, mas depois conseguiu se focar em um único objetivo que foi deter Vorten e sua ascensão. O livro começa explicando como Vorten se tornou quem é, mas quando chega a seu ponto alto não continua, a explicação vem apenas na reta final do livro.

Uma criatura nova surge na trama, ela estava presa no vulcão. Em momento algum ela tinha sido mencionada, apenas surge quando o vilão já está próximo a região. Essa forma 'jogada' de escrita não ajuda na assimilação dos detalhes, e só reforçam a sensação de perda, de que sempre algo ficou sem relatar.

Um detalhe bom do livro que todos autores de séries deveriam fazer, e poucos fazem, é um pequeno resumo do livro anterior. No caso do resumo do primeiro livro ele foi mais esclarecedor do que o próprio livro, e me ajudou bastante a me lembrar de tudo que tinha ocorrido. No final do livro também existe um índice com os personagens, poderes, locais, termos e etc. Uma pena que tudo seja tão pouco explorado!


O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Feminismo é um assunto muito abordado hoje em dia, mas infelizmente nem sempre foi assim. Quando o termo “feminismo" nem sequer havia sido cunhado, Simone de Beauvoir escreveu e publicou O Segundo Sexo, que hoje marca a prática discursiva da situação feminina. Em textos bem reflexivos, a autora aborda no primeiro volume Fatos e Mitos da condição da mulher, já no segundo exemplar, A Experiência Vivida, examina a condição feminina em todas as suas dimensões – sexual, psicológica, social e política.

Essas obras são leituras complexas, quase que um divisor de águas para quem lê, pois esclarece vários assuntos na nossa mente, como as crenças e ensinamentos que são repassados de geração após geração como o certo, sem muito questionamento. Também nos ajuda a entender melhor o feminismo, já que muitas pessoas pensam erroneamente sobre o mesmo.

Amei ler esses títulos e os acho muito importantes para todas nós, mulheres, mas também é muito indicado para que os homens os leiam e possam compreender muitos pontos. A autora faz análises em várias dimensões para conhecermos o motivo da origem da ideia de “inferioridade” da mulher na sociedade, e traz para a gente uma lista de exemplos de espécies em que ambos os sexos são iguais, independentemente de ser macho ou fêmea.

Como Simone foi companheira de Jean-Paul Sartre, criador do conceito de Existencialismo, estava inserida no ambiente da Psicanálise e, com isso, traz uma abordagem mais crítica nesse âmbito sobre a figura feminina, utilizando termos técnicos sobre esse assunto.







O Lado Obscuro - Tarryn Fisher

Depois de ter lido alguns livros de Tarryn que conseguiram despertar diversas emoções enquanto eu lia, eis que surge “O Lado Obscuro”, obra que veio realmente para mexer com a gente. Nesse exemplar, conhecemos a história de Senna Richards, uma escritora de sucesso que na manhã do seu aniversário acorda em uma cabana totalmente estranha em meio a uma tempestade de neve, em um lugar totalmente isolado. Nesse cativeiro, ela descobre que não está sozinha, mas, sim, com Isaac, uma pessoa que foi bem importante em seu passado. E no local tem tudo o que eles precisam para sobreviver durante meses.
O exemplar é dividido em 3 partes narradas em primeira pessoa por Senna, e também temos a chance de ler alguns capítulos denominados “O Livro de Nick”, quando ele é o narrador.

Então a história se alterna entre o passado e o presente para nos mostrar um pouco sobre quando eles se conheceram, e também o agora que estão juntos naquele local. E em cada momento vamos descobrindo um pouco mais sobre a história de Senna, vemos como ela é uma mulher forte, mesmo tendo passado por muitas coisas.
Ao longo do tempo que estão passando juntos nessa cabana, vão descobrindo pistas deixadas pelo sequestrador, que mostram que esse acontecimento está relacionado a algum fato do passado de nossa protagonista.
Esse volume mescla suspense e drama em uma narrativa envolvente, que faz com que a gente não consiga parar de ler, já que autora vai soltando pistas bem aos poucos. A cada virada de página queremos descobrir quem armou para Senna, ao mesmo tempo que sofremos junto com ela.






O Mundo de Lore - Criaturas Estranhas #01 - Aaron Mahnke

No instante em que eu vi a capa do livro O Mundo de Lore - Criaturas Estranhas, do autor Aaron Mahnke, mesmo antes de ler sua sinopse, eu desejei ele na minha estante. O trabalho gráfico da Darkside Books foi de encontro ao meu gosto e despertou o desejo imediato!

A partir do premiado podcast Lore, onde episódios se inspiram nos mais diversos eventos estranhos ao redor do mundo e tempo, Mahnke explora neste volume criaturas das mais distintas origens que assustaram e geraram lendas que perduraram até hoje, algumas verdadeiras, outras tão antigas que se perderam no tempo!

Cada capítulo escolhe uma criatura para ser explorada, a primeira, por exemplo, são os vampiros, desde a sua provável origem, passando pelos principais casos registrados na história. Alguns são explicados pela ciência de hoje, outros ainda geram mais perguntas que respostas, o autor narra de forma breve e objetiva as características atribuídas a estes seres. Depois algumas histórias sinistras sobre zumbis são lembradas, e eu sempre fico aflita ao me lembrar que alguns locais ainda hoje desfilam com pessoas mortas pelas ruas como se elas ainda fossem vivas, mas elas já morreram faz tempo!

Entre cada caso, lenda e situação o autor joga a verdade ora fazendo o leitor acreditar que tudo que é relatado é verdadeiro, ora atribuindo explicações muitas vezes sob a ótica psicológica do comportamento humano, tanto para acreditar nestes seres quanto para interpretar certos acontecimentos. No final ele sempre deixa as respostas em aberto para serem interpretadas, sem acreditar ou desacreditar do que narra.

Os relatos se focam muito nos Estados Unidos, mas diversos países são citados, que é o caso do capítulo seguinte que se foca em criaturas pequenas, como os elfos na Islândia, ou os duendes da Irlanda. Em sua grande maioria os nomes específicos atribuídos a essas criaturas são citados, e nomes genéricos não são usados. Neste capítulo em específico, onde criaturas do meu maior interesse são trabalhadas, alguns relatos me eram conhecidos, mas alguns foram novos.

Na sequência são citados seres que parecem animais, mas que não tem comportamento e aparência comum, aqui alguns relatos lembram lobisomens ou híbridos de homens e animais. Criaturas marinhas também aparecem, e talvez sejam entre todas a menos questionadas, já que nas profundezas de rios e mares o desconhecido impera.

As situações não param apenas nessas criaturas vivas, um caso de um boneco possuído também é narrado detalhadamente, assim como da famosa Annabelle. Seguem-se casos que ficam entre criaturas desconhecidas e fantasmas. Até culminarem nos espíritos, que têm diversos relatos com diversos enfoques, alguns de origem de pessoas mortas, outras com aspectos demoníacos.

O livro possui uma vasta bibliografia, que é muito interessante para aprofundar os temas. E como comecei dizendo tem um trabalho gráfico incrível! Repleto de ilustrações que trazem um ar único ao livro, são extremamente fofas e macabrinhas. O volume é todo nas cores preta, branca e vermelha, além de contar com o corte em vermelho. É um livro tão lindo que eu me pegava apenas admirando cada detalhe e não o lendo.

Infelizmente o livro é muito breve, e só deixou um gosto de quero mais, já que os temas são muito interessantes e o modo descontraído que o autor narra cada um deles é muito atraente e fluido de ler. A série O mundo de Lore têm outros dois volumes, Wicked Mortals e Dreadful Places, e espero que a Darkside traga logo eles para cá com o mesmo cuidado que este primeiro volume.


Criaturas Estranhas é uma união que todo leitor de fantasia, terror e sobrenatural vai amar ler e saber. É uma obra de arte do ponto de vista gráfico, e um bom ponto de partida para começar a estudar as criaturas abordadas. É diversão para os que como eu acham a noite uma criança e o sobrenatural um mundo a ser explorado.

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Contos Clássicos de Terror

Eu sempre pensei que antologia de contos são ótimos meios para conhecer novos autores, mas em Contos Clássicos de Terror elevou essa opinião muito acima, já que nessa reunião de contos feita pelo Julio Jeha, e publicado pela Companhia das Letras o contato não é com novos autores, mas com autores velhos e consagrados!

A coletânea pretende reunir o que existe de melhor dentro dos gêneros gótico, terror e horror, o livro é composto por dezenove contos onde os sentimentos despertam os mais diferentes afetos nos protagonistas que se veem nas mais variadas situações as vezes cotidianas, as vezes nunca antes imaginadas. Medo, loucura, imaginação, terror, repulsa, anormalidade e paranormalidade são alguns dos itens abordados por autores tidos como clássicos.

E ao contrário do que costuma acontecer muito não trata-se de um livro com autores somente brasileiros, ou só estrangeiros, já que Jeha se valeu de muitos brasileiros em sua seleção. E é notável a diferença entres os nacionais, que pendem para um estilo facilmente reconhecível. E para os fãs da diversidades temos tanto homens como mulheres.

O primeiro autor, por exemplo, é George Sand que na verdade é pseudônimo da baronesa Amandine Aurore Lucile Dupin, seu conto Espiridião, no entanto não chamou minha atenção. Já Morte na Sala de Aula, do autor Walt Whitman é simples e macabro, conseguindo extrair em poucas folhas o que a maldade nas salas de aula de antigamente poderia gerar.

Edgar Allan Poe não poderia ficar de fora já que está entre um dos mestres do gênero, seu conto O Barril do Amontillado, no entanto foi uma releitura, visto que já li em uma reunião de contos do autor, mas o conto não deixa de ser um ótimo registro de uma vingança a sangue frio!

Muito conhecido por suas obras A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro, R.L. Stevenson através do seu conto O Ladrão de Corpos narra exatamente o tipo de estória que esperamos para uma estória de terror, em um cotidiano de pessoas de índole duvidosa, mas onde a justiça busca através do sobrenatural ser realizada.  A Causa Secreta escrito por Machado de Assis, não aborda nenhum tema estranho, ao contrário é uma narrativa cotidiana sobre a natureza humana, natureza essa que Assis era intimo conhecedor!

Auguste Villiers de L'Isle-Adam com A Tortura pela Esperança não me agradou pela temática, a inquisição, não gosto de nada com esse tema de ignorância e intolerância. Já em Bárbara, da Casa de Grebe, com o autor Thomas Hardy, tudo soava como um romance de época até que um terrível acidente desperta a loucura! Está entre meus favoritos pelo modo sutil e pontual que abordou sua estória.

Dizer nessa altura que nunca tinha lido Bram Stoker é uma vergonha, então poder finalmente conhecer sua narrativa através de A Selvagem foi um prazer! Seu conto é muito simples, mas não sem certa complexidade nos detalhes que permite uma conexão tamanha que me fez pensar na estória muitas horas depois da leitura. Mesmo nesta pequena obra é possível perceber seu talento.

H.G. Wells é um dos meus autores do coração, Pollock e o Homem de Porroh foi uma releitura, e ela mostra como foi para os ocidentais difícil compreender e respeitar a cultura e a religião dos países africanos.  A Tapera segue com Henrique Coelho Neto, autor brasileiro fundador da cadeira número dois da Academia de Letras, e que eu nunca tinha ouvido falar. Em seu conto encontramos elementos da cultura da época da escravidão e do plantio de cana de açúcar, a sua narrativa é muito característica e consegue ter falas ora rebuscadas, ora simples e regionais.

A Mão do Macaco é um conto muito comentado, escrito por W.W. Jacobs, extrai da natureza humana a ambição aliada ao macabro. É um ótimo conto! Joseph Conrad, em A Fera, tem como protagonista nada menos do que um barco que tinha um humor sádico para matar seus tripulantes. O conto do carioca João do Rio, Emoções, é provavelmente o mais sem graça de todos.

Hugh Walpole, com o Tarn, é outro conto que segue o clima esperado e teve uma ótima execução mostrando como a inveja leva um homem a cometer um crime que ninguém viu, mas que teve seu rápido retorno. Meu conto favorito (junto ao de King) sem dúvida foi o de ninguém menos que H.P. Lovecraft, com Na Cripta, foi meu primeiro contato com o autor e adorei o estilo da escrita do mesmo, e como ela conseguiu ser macabra sem ser explícito, apenas dando a entender o que se passava.

Humberto de Campos foi escolhido com Os Olhos que Comiam Carne, é um conto que parece não levar a lugar algum, mas que termina como um soco no estômago! Já Shirley Jackson, em  A Loteria segue o mesmo gênero de conto despretensioso, mas que nos deixa sem fala no final. Com Lygia Fagundes Teles, Venha ver o pôr do Sol mostra a crueldade que um homem rejeitado tem ao marcar um último encontro com a mulher que gosta.

Por fim, o livro termina com Stephen King e o conto Vovó. O meu favorito empatado com Lovrecraft. King é incrível ao criar uma narrativa que por boa parte aborda o simples fato de uma criança ficar sozinha em casa com sua avó velha e doente. Ele descreve coisas simples como a aparência da avó, e como isso assusta o garoto, é simples e genial, depois a narrativa segue para um caminho mais sobrenatural, e tem um desfecho que abre a interpretações.

Acredito que uma breve resenha de cada autor ajudaria a ambientar os contos, já que alguns deles são bem antigos e são desconhecidos do público. A edição em capa dura está bem gótica e só falha em não ter uma fita de cetim como marcador,  seria um excelente adição ao livro.

Contos Clássicos de Terror é uma reunião que vale cada página, porque permite encontros com autores consagrados e com boas estórias. Os autores escolhidos nem sempre são associados com o gênero, ao mesmo tempo que os clássicos do estilo se fazem presentes. Não existem estórias ruins, e com certeza alguma delas vai agradar ao leitor. Fã ou não do terror a leitura é para quem gosta de boas estórias e aquele friozinho na barriga pelo desconhecido!

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A Bússola de Ouro - Fronteiras do Universo #01- Philip Pullman


Em 2007, antes do lançamento do filme eu li A Bússola de Ouro, do autor Philip Pullman, lançado na época pela editora Objetiva. Muitos anos se passaram, eu até cheguei a ler o segundo livro da série, mas a verdade é que já esqueci de muita coisa, especialmente do segundo volume. E em se tratando da Trilogia Fronteiras do Universo a fantasia é mais complexa. Então quando vi a capa do relançamento pela Suma de Letras eu tive certeza que havia chego o momento certo de reler e finalizar a série! Ainda mais agora que os livros viraram série na HBO!

Lyra Belacqua vive pela enorme universidade de Jordan em Oxford, sua vida entre os telhados e guerras infantis com outras crianças pela cidade são sua única preocupação, e ela não deseja mais nada além da vida simples que tem. Entretanto após participar sem querer de uma reunião dos catedráticos da universidade, e descobrir sobre o pó, ao mesmo tempo em que estranhos boatos sobre crianças desaparecendo em diversas cidades, ela acaba sendo convidada a ir para o norte por uma estranha mulher. Lyra parte para Londres, onde vai de repente se ver fugindo e ao mesmo tempo buscando por seu amigo Roger e Lorde Asriel. Uma aventura que tem onde começar, mas tem onde terminar.

Lyra tem apenas onze anos, mas tem um perfil de uma criança que frequenta muito as ruas, e sabe se defender. Convive muito com os meninos, logo não é uma criança chorona ou medrosa, ao contrário tem a língua maior que a boca e atitudes de sobra mesmo quando os ventos não estão a seu favor. Quando ela acaba com a Sra. Coulter em Londres ela começa a amadurecer, não apenas para se aproximar mais dos adultos, mas para compreender a lógica do mundo, no caso do mundo com elementos mágicos. Seu crescimento, portanto, é muito interessante, de menina respondona e que só fazia o que queria, até uma mentirosa e ardilosa é visível, mas ela não muda seu caráter, se ela mente é para se proteger. Sua luta é sempre pelo bem, ela quer ajudar que ama.

O que eu sempre achei interessante desde a primeira leitura da obra foi os elementos mágicos que o autor explora. O modo como ele os vê tem diversos paralelos com a física quântica, daí um pouco da complexidade da estória que diversas vezes tenta explicar o que é o pó por exemplo, que eu entendo como a energia que a tudo circula e está. Também surge o conceito de mundos paralelos que existem ao mesmo tempo que o nosso. Com essas possibilidades a partir da física a atmosfera do livro parece mais realista, embora não tanto quando pensamos nos daemons, os animais que cada ser humano possui desde o seu nascimento. Outros aspectos não tão real são as feiticeiras exploradas por ângulos interessantes, já que elas vivem ligadas aos elementos naturais, a natureza, e usam galhos para voar.

Pantalaimon é o daemon de Lyra - os daemons são como partes da alma personificadas em forma animais que só tem forma definitiva depois da puberdade.  Eles poderiam ser definidos como a sombra da alma, pensando em conceitos junguianos. Pan, como é chamado por Lyra sente tudo que sua dona sente e pensa, e ela o mesmo com ele, assim eles são como um corpo só dividido em duas partes. Uma simbiose perfeita que se apoia e precisa viver com o calor e amor um do outro, separá-los é causar sofrimento e muita dor!

A vilã Sra. Coulter, é uma criatura vil, sem amor e com um coração frio, embora pareça gostar de Lyra ela não se importa quem terá que sacrificar para alcançar seu objetivos. Pela estória de vida dela narrada, ela sempre foi assim, sem empatia pelos que a circundam, embora eu não goste nada dela, é do seu mico leão dourado que eu menos gosto, ele é cruel e sádico, gosta de maltratar os daemons dos outros. O estranho sobre ela ainda é que ela faz as coisas não por crença ou convicção, mas pelo poder, pelo puro poder, ela não demonstra nada além dessa sede desenfreada por ser dominadora.

Os gípcios são como ciganos, eles são fundamentais na fuga de Lyra e são eles quem contam a ela sua própria estória, ou diria a verdade sobre sua vida e futura missão. São um povo cheio de tradições, e percorrem canais pela Inglaterra com seu barcos. John Faa e Farder Coram são os dois principais, e fazem o papel dos mais sábios da trama.

Completando o clima diferente temos um urso de armadura, Iorek Byrnison, com personalidade de sobra e força sem igual, diferente dos ursos comuns tem polegares e facilidade para metalurgia. Além de toda uma cultura no seu lar, com uma estrutura monárquica inclusive.

Ambientado entre o clima inglês e depois o da Lapônia, o ambiente foge do lugar comum das fantasias inglesas para adentrar o clima gelado da Escandinávia, posteriormente do polo norte. E em tudo contribui para unidade e peculiaridade da narrativa realizada em terceira pessoa sob o ângulo da destemida Lyra.

Toda a trilogia, A Faca Sutil e A Luneta Âmbar já foram republicados pela Suma de Letras, todos com capas lindas que refletem o encanto do livro. Reler A Bússola de Ouro me fez lembrar de bons tempos, e de uma boa leitura. De uma fantasia madura e que não se preocupa para qual publico escreve, se está na moda, ou se tem temas atuais. É uma estória bem traçada e pensada. Uma fantasia moderna como deve ser, e para gente grande!


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Black Hammer #03: Era Da Destruição - Parte 01 - Jeff Lemire, Dean Ormston, Dave Stewart & Todd Klein

Quando os Super-Heróis Abraham Slam, Menina de Ouro, Coronel Weird, Barbalien e Madame Libélula venceram a batalha contra o Antideus, foram enviados para uma cidade estranha onde nada é o que parece e eles precisaram construir novas identidades com histórias de vida manipuladas, escondendo seus poderes e origens. E ainda precisam conviver uns com os outros harmoniosamente, o que acaba sendo difícil devido a suas personalidades fortes e tão diferentes umas das outras. Dez anos se passam sem que eles tenham qualquer palpite do que pode ter acontecido e ainda sem nenhuma pista de como fazer para escaparem com vida deste lugar, que parece uma realidade paralela suspensa no tempo.
Quando Lucy consegue chegar ao local, uma nova esperança surge no ar. Até que ela desaparece novamente, deixando-os sem explicações mais uma vez. Porém, as coisas começam a se encaminhar do jeito que alguns deles gostariam e há uma aceitação de que aquela é uma boa realidade. Porém, como todo mundo já sabe, antes de qualquer tempestade sempre vem a calmaria...
Nesse terceiro volume da série em quadrinhos Black Hammer, já vemos as coisas ficarem muito mais balançadas. Até agora considero que este foi o volume onde encontramos mais respostas e algumas revelações bem importantes e surpreendentes acabaram surgindo com o desenrolar da trama, deixando os leitores ávidos por mais informações e querendo seriamente desvendar o que o futuro vai trazer.
Achei a trama bem bolada até agora e parece bem interessante para onde as coisas estão encaminhando. Estou bastante curiosa para saber mais e queria que os volumes fossem publicados mais rápido, porque a sequência deste só será lançada em novembro deste ano no exterior, ainda sem data para publicação nacional, mas acredito que a Intrínseca não deve demorar a trazê-lo para cá.


O Caso da Mansão Deboën - Edgar Cantero

Desde que me conheço por gente eu sempre assisti aos desenhos do Scooby-Doo, em todas as suas temporadas e traços, eu sempre fui fã e gostei das estórias de mistérios, algumas mais que outras, alguns personagens mais do que outros, mas é um companheiro constante na minha vida até hoje. Ao ler a sinopse e ver a capa do livro O Caso da Mansão Deboën, do autor Edgar Cantero, publicado pela Intrínseca, ficou muito óbvio que o livro era inspirado diretamente neste clássico animado, e minha animação para lê-lo foi imediata.

Mais de uma década depois de resolver seu último mistério os jovens detetives de Blyton Hills seguem cada um com sua vida, mas algo não os permite de seguirem sem pensar constantemente no caso, os pesadelos ainda são constantes, e algo ficou para trás. Andy não consegue encontrar seu lugar, Kerri embora formada não consegue ser uma boa profissional, e Nate passa seus dias em hospitais psiquiátricos junto do fantasma de Peter. Convencida que o caso da mansão Deboën não teve seu culpado preso, Andy reuni novamente o grupo para voltar a mansão e descobrir os reais mistérios que ela esconde, o que eles não esperam no entanto é o que encontram!

A narrativa de Cantero feita em terceira pessoa acompanha os passos de cada um dos integrantes deste quarteto, que além dos personagens já citados tem um cachorro, Tim. Muito de fato lembra aspectos do desenho Scooby- Doo, como personalidade dos personagens, Kerri é muito inteligente como a Velma, e temos um cachorro no grupo, mas Tim ao contrário do Scooby é destemido e muito corajoso, atacando mesmo quando pode morrer. Alguns relatos do caso na década de 70 são como estar vendo ao episódio com a famosa fala de "eu teria fugido com o dinheiro, se não fossem esses garotos intrometidos". Mas uma vez que o caso é reaberto treze anos depois as semelhanças começam a ficar para trás a medida que o caso também deixa de ser sobre um homem fantasiado.

O fato de a narrativa ganhar caminho próprio no entanto acaba também fazendo com que ela seguisse caminhos que resultam em resultados exagerados, assim existem aspectos que me agradaram como questões ocultistas, e outros que não me agradaram em nada como caminhos apocalípticos que soaram forçados em um livro breve, talvez se a estória se alongasse mais passaria, mas um caso que começou na investigação, e acaba em uma questão de sobrevivência do mundo não soou possível para mim.

O livro é repleto de referências ao mundo pop e embora lide com temas mais densos como magia negra e deuses antigos não tem um clima pesado, ao contrário os personagens diante da catástrofe seguem firme para fazer o que é preciso e salvar o dia. Além de querer trazer representatividade ao grupo que tem uma jovem lésbica, um garoto que vive em hospitais psiquiátricos, e uma bióloga com o famoso girl power.

Sem dúvidas Tim, o Weimaraner é meu personagem favorito, mesmo sem falar, ele consegue através de suas atitudes e a interpretação do autor do mesmo ser muito expressivo, e assim despertar total simpatia. Ainda mais quando ele está ao lado de seu amigo de plástico, o pinguim!

Kerri é formada em biologia, mas não consegue fazer sua carreira seguir, e acaba trabalhando em um bar. Considerada uma mulher ruiva bonita ela desperta a atenção de todos, inclusive de sua amiga Andy. Andy por sinal segue o famoso caminho de sou a diferente e ninguém me entende e me respeita. Mesmo assim mostra muita fibra e determinação para ajudar a resolver os problemas. Nate por ser assombrado pelo amigo Peter é o um elo frágil, embora com muito talento para temas do oculto, ele é facilmente abalado, e irritado pelo fantasma.


A Abadia de Northanger - Jane Austen

Catherine Morland vem de uma família grande (tem nove irmãos – sendo, portanto, um total de dez filhos) e respeitável, que tem boas condições de vida, apesar de não serem ricos e da alta sociedade. Mas todos vivem bem e tranquilos. Quando criança, ela fazia um estilo mais moleca para os padrões da época, curtindo atividades até então consideradas mais masculinas. Também era uma pessoa comum, sem grandes conquistas ou uma mente brilhante. Por isso, ninguém a consideraria como a protagonista de uma história. Porém, quando alcança a adolescência, aos quinze anos, decide mudar e começa a se interessar mais por moda e coisas “femininas”. Além disso, ela decide embarcar em diversas leituras para enriquecer a memória e o modo de agir.
Sem muitas esperanças de grandes acontecimentos ou de conhecer pessoas muito interessantes e diferentes das que está acostumada, Catherine fica imensamente feliz quando é convidada pela família vizinha, com quem seus pais têm uma ótima relação, a passar uma temporada de algumas semanas em Bath. Empolgadíssima com a mudança de ares, nossa protagonista começa a imaginar tudo que pode acontecer por lá, desde os perigos que podem espreitar pelo caminho quanto coisas diferentes que podem surgir nesse lugar novo para ela.
Primeiramente ela e sua companheira de viagem, Sra. Allen, vivem dias monótonos, pois não encontram conhecidos. Porém, as coisas estão prestes a mudar quando é apresentada ao Sr. Tilney, que é divertido e agradável, e depois uma antiga amiga de aulas da Sra. Allen a encontra e apresenta seus filhos, entre eles Isabella, que logo se torna amiga de Catherine, e John Thorpe, um rapaz bem enfadonho que se interessa por Catherine.
Divertindo-se bastante nos encontros sociais que vivencia com tão agradáveis companhias em Bath em diversas atividades e bailes, Catherine fica cada vez mais interessada no Sr. Tilney. Quando recebe um convite para visitar a residência da família, a Abadia de Northanger, nossa protagonista passa a imaginar uma maravilhosa aventura gótica que vai experienciar no local, com certeza cheia de intrigas e suspense. E começa a elaborar as mais variadas teorias a respeito do local e de seus moradores. Mas talvez sua imaginação esteja solta até demais...
Mesmo gostando muito mais da experiência de ler os livros antes de assistir as adaptações para séries ou filmes, acabei fazendo o contrário com essa história. O que acontece é que alguns anos atrás estava apaixonada por séries e filmes de romances clássicos, então assisti várias. Como Jane Austen é uma autora favorita, vi diversas de suas adaptações, inclusive o filme de 2007 desta obra. Lembro que adorei a história, mas deixei o livro para ler depois. Acabou que não consegui ler antes, mas finalmente tive a oportunidade. O ponto positivo disto é que eu só me lembrava de alguns detalhes e da essência da história, mas não da trama inteira, então é quase como se eu conhecesse o enredo pela primeira vez. E amei!!
Diferentemente de outros de seus títulos, considero que “A Abadia de Northanger” é uma história mais simples, com menos acontecimentos e reviravoltas, mas, como sempre, Jane consegue nos apresentar uma trama bem construída e ótimos personagens bem desenvolvidos, que nos mostram o ser humano e suas peculiaridades, e como os diferentes tipos de motivação das pessoas fazem com que suas ações sejam completamente distintas e, quase sempre, inesperadas. A impressão que tenho sempre que leio uma de suas obras é que Jane sempre se interessou pelo “estudo” da natureza humana e seu comportamento, e gostava de explorar muito isso com os personagens que criou.
Algo que ela também trabalha é o poder da imaginação e de como a mente humana pode pregar peças na própria pessoa. Quando alguém “tem certeza” de algo ou acredita firmemente em determinado assunto sem antes pesquisar, por exemplo, pode acabar se surpreendendo futuramente quando souber a verdade, que nada tinha a ver como o imaginado.
A trama é bem divertida com diversas ações e comentários cômicos tanto por parte da protagonista, Catherine, como de outros personagens secundários. Além disso, é uma paródia aos Romances Góticos, que estavam em voga na segunda metade do século XVIII na Inglaterra. Por conta disso, também tem um quê mais “sombrio”, remetendo a esse gênero dos romances, em especial “Os Mistérios de Udolpho”, de Ann Radcliffe, porém de uma forma irônica e hilária.
Há críticas sobre o cenário da época, em especial o literário, que diminuía os romances (obras de ficção) e também os autores do gênero, como se fossem de segunda categoria ou pouco dignos de serem lidos. Refletindo sobre esse assunto, podemos notar que ainda hoje isso acontece, mesmo que numa escala um pouco menor já que existem muitos títulos do gênero e também diversos leitores. Mas sempre ouvimos comentários de como esse tipo de leitura é inferior ou coisas semelhantes. O que já era chato naquela época e continua sendo hoje.




Epifania - Colônia Espiritual nas Lidas da Desobsessão - Emerson Capelli pelo espírito Irmão Atanásio

Como já comentei aqui outras vezes eu frequento todos os anos o Mega Feirão de Livros Espiritualistas da cidade de Santo André, aqui em São Paulo. Eu faço questão de ir porque possui uma variedade muito grande de livros espíritas e espiritualistas com preços mais em conta do que no mercado tradicional, embora na edição deste ano esses preços tenham sido muito mais altos do que de costume. Nessa feira eu deixo minha intuição mandar e escolher o que comprar, já que a quantidade de livros é muito grande, e é impossível ler um por um para escolher. Foi deste modo que cheguei a Epifania - Colônia Espiritual na Lidas da Desobsessão, uma psicografia do autor Emerson Capelli, pelo espírito Irmão Atanásio, com publicação independente.
Neste volume acompanhamos o espírito Atanásio que habita a colônia extrafísica de Epifania, local com grupos especializados na lida da desobsessão - é um termo usado dentro do espiritismo onde se atua junto a pessoas que estejam recebendo interferências em suas vidas de cunho espiritual, o tratamento visa ajudar não só quem sofre, mas também o obsessor, ou seja, o espírito que está causando o mau. A cada capítulo acompanhamos diversos trabalhos exercidos por esse grupo, onde o líder é o espírito Bizoure.
O grande diferencial neste livro é a quantidade de informação que ele possui e abrange, onde o aproveitamento vai depender em alguma medida de informações já assimiladas pelo leitor anteriormente. Alguns aspectos são trabalhados, como por exemplo como é a atuação dos espíritos junto a pessoas que estejam sendo influenciadas por obsessores. Alguns casos são relatados, e embora na fala dos 'personagens' (trata-se de uma história real, mas vou chamá-los assim por falta de um termo melhor) o discurso cristão seja forte, muitos outros ângulos são trabalhados como a importância da astrologia, conhecimentos ocultistas e indianos, além da atuação de espíritos da natureza tanto no momento exato da reencarnação como na desobsessão.
A astrologia é um dos temas mais trabalhados durante o livro. É bastante frisado que é escolhido com antecedência qual o signo o sol estará no momento do nascimento, já que sua carta astral poderá tanto ajudar quanto atrapalhar o que o encarnante veio trabalhar na Terra. Alguns signos são mais explorados que outros, mas o discurso é muito voltado para aspectos mediúnicos e as responsabilidades de cada signo com eles. Quem já se deu ao trabalho de fazer um mapa astral mesmo que superficialmente vai compreender a vital importância da influência dos astros em nossa vida.
Quanto aos conhecimentos ocultistas desde Blavatsky, passando por chacras e conhecimentos indianos, Atanásio não se prende ao discurso comum dos livros espíritas, e diversos conhecimentos se juntam para dar explicações a suas indagações. Essa pluralidade cria um universalismo e uma riqueza que poucos livros ousam ter.
Por fim, o aspecto que mais me deleitou foi saber mais sobre o trabalho diário dos espíritos da natureza, conhecidos por gnomos, duendes, silfos, salamadras e etc. O livro explora a atuação deles junto ao dia a dia espiritual, que vai além de cuidar apenas da natureza. Eles são responsáveis, por exemplo, pela criação do corpo etérico do espírito que vai encarnar, ou por elementos usados no momento da desobsessão.


O Demônio do Meio-Dia - Uma Anatomia da Depressão - Andrew Solomon

A Depressão com certeza é a doença do século, e com certeza você conhece alguém que tenha ou que teve algum período no mínimo depressivo. A faculdade me permitiu ter contato com esse modo de existência, mas fazia tempo que não lia a respeito. Com tantas pessoas ao meu redor com humores suspeitos eu resolvi que precisava ler mais, e O Demônio da Meia Noite- Uma Anatomia da Depressão, do autor Andrew Solomon, publicado pela Companhia das Letras, foi meu companheiro por diversos dias, e através dessa obra pude acompanhar um pouco dessas nuvens trevosas.
Solomon a partir de sua própria batalha contra a depressão traça um quadro da doença que assola o mundo inteiro, sem escolher raça ou nível social, idade ou sexo, todos estão propensos, mas poucos assumem essa luta diária que requer coragem e muita resistência.
Com os objetivos em mente de despertar a empatia, e depois criar uma ordem baseada no empirismo, ele parte de sua própria história, desde como era sua vida na juventude até como de repente sua depressão surgiu. Passando por suas inúmeras lutas para encontrar o remédio adequado, seus colapsos que geraram três grandes crises e que o paralisaram por longos períodos, culminando no seu momento atual de controle, mas não de cura.
Após relatar sua jornada, ele busca capítulo a capítulo por temas relacionados, como os tratamentos que são os antidepressivos ou algumas terapias de choque, sessões cognitivo-comportamentais ou psicodinâmicas, e até alguns remédios alternativos. Solomon faz uma análise muito interessante da população acometida, e conclui que as mulheres parecem mais vulneráveis a se deprimir, especialmente após o parto, e que filhos de mães deprimidas têm tendência a ter depressões mais severas. Afim de levantar possíveis grupos de risco alguns estudos segmentados são comentados por ele.
Um capítulo é dedicado ao suicídio, e alguns aspectos interessantes são levantados. Como, por exemplo, a alimentação que é tida como saudável para o corpo - baixo colesterol e carboidratos- é geradora de depressão, já que diminui os neurotransmissores. Como o cérebro é um enigma algumas atitudes tomadas afim de arrumar a saúde podem colaborar para que o mesmo entre em desequilíbrio, um corpo saudável sem uma mente saudável também não consegue funcionar, ele facilmente entra em curto.
A pobreza também ganha sua atenção, já que trata-se de uma camada da população com maior dificuldade de diagnóstico. Isso porque essas pessoas que vivem sempre em dificuldade já têm comportamentos retraídos e resignados que são associados a sua condição de vida, e não a depressão. Eles também têm mais dificuldade de conseguir e manter o tratamento, visto que têm jornadas de trabalho e serviços domésticos que demandam mais tempo.
Alguns aspectos políticos são abordados, mas são focados na política americana da época em que livro foi elaborado. Não creio que tenha mudado muito, já que os Estados Unidos são conhecidos por problemas com a saúde, apenas alguns estados contam com saúde gratuita, e mesmo a população que conta com planos de saúde não tem acesso ao tratamento de forma completa, muitas vezes com limitação de consultas ou remédios. Batalhar para conseguir tratamento não é algo que um deprimido seja capaz de fazer como um doente de outra doença, a força ação dessas pessoas é quase nula.
Embora de importância inquestionável com a onda de medicações houve uma grande desvalorização das terapias, que foram deixadas de lado pelos remédios. E após isso até mesmo os remédios têm ganhado adeptos da antimedicação, listando argumentos contra o uso contínuo de antidepressivos. A verdade é que ainda não existe uma cura, uma vez que você tenha essa condição você precisa de constante controle e alerta, por isso tanto as terapias quanto os remédios precisam caminhar juntos a outras atividades que despertem a vida no paciente. É provado que falta de neurotransmissores nestas pessoas, mas corrigi-los também não tem sido o suficiente para sanar o problema. Isso gera a pergunta o comportamento depressivo gera essas alterações cerebrais, ou as alterações geram o comportamento? Eu sou do time que pensa que nossos atos e pensamentos somatizam no corpo.


Piloto Playboy - Vi Keeland & Penelope Ward

Kendall Sparks precisa tomar uma grande decisão, que pode mudar tudo o que conhece na sua vida até agora radicalmente. O tempo para fazer sua escolha está acabando e ela tem algumas coisas em andamento, mas não sabe se está preparada para o que o futuro reserva. Para arejar a mente e tomar uma decisão da qual não vai se arrepender, ela opta por fazer uma viagem sem rumo para espairecer e refletir sobre tudo. Quando tenta escolher seu destino no próprio lounge do aeroporto, acaba conhecendo de uma forma no mínimo inusitada um homem um pouco misterioso, que ao mesmo tempo é divertido e simpático. Sua sugestão é que ela pegue o próximo voo para o Rio de Janeiro e tem ótimos argumentos para convencê-la.
Kendall pensa que nunca mais iria vê-lo, mas fica intrigada e decide embarcar nesse avião. O que ela não poderia imaginar é que aquele homem era justamente o piloto do voo! Depois de chegarem ao seu destino, eles acabam se aproximando e percebem que combinam tanto um com o outro que a conexão parece até magnética. Para se conhecerem melhor, os dois embarcam em várias pequenas aventuras enquanto dá tempo – afinal ele tem um novo voo para pilotar.4
Como Carter tem essa profissão e acaba indo de país para país em poucos dias, e desejando estender o contato entre eles para ver aonde aquilo poderia ir, mesmo sabendo que há uma linha final para a história deles, ambos embarcam em várias viagens juntos com destinos exóticos. E, conforme dividem seus dias corridos e vivenciam diversas situações inusitadas, eles se conhecem mais e mais e um sentimento acaba surgindo. Mas aquela decisão que ela precisava tomar, juntamente com a vida “louca” de Carter (e também todas as mulheres que trabalham com ele que já passaram pela sua cama) podem atrapalhar qualquer tipo de relacionamento que eles poderiam ter. Seguir em frente ou tentar fazer com que dê certo? Essa é mais uma decisão que pode mudar completamente a vida desses dois.
Como já comentei aqui no blog, Vi Keeland é, definitivamente, uma das minhas autoras favoritas da vida! Até o momento já li nove obras dela e gostei de todas, sendo algumas até mesmo favoritadas. Então, quando uma editora publica um de seus títulos eu já fico louca para lê-lo o quanto antes. A Editora Charme foi a responsável por me apresentar à autora em 2015 e “Piloto Playboy” é o seu lançamento mais recente aqui no Brasil. A editora já adquiriu mais dois títulos, Dear Bridget, I Want You e Mister Moneybags, ambos também escritos em coautoria com Penelope, mas ainda não anunciou uma previsão de publicação. Já estou mais do que ansiosa esperando.
É sempre muito gostoso quando a gente embarca numa nova leitura de uma escritora que gostamos tanto, e esse sentimento é ainda melhor quando fechamos o livro e podemos confirmar mais uma vez que adoramos passar aquele tempo com seus “novos” personagens.
Kendall é simplesmente incrível! Outra protagonista feminina forte, com uma personalidade agradável e adorável que faz com que a gente se sinta amiga da vida real – como se ela existisse fora das páginas de um livro (teria apenas dado um conselho em um momento que achei sua atitude exagerada). Também adorei Carter de modo geral, só que alguns pontos no personagem me incomodaram um pouco, como vou comentar abaixo. Tirando isso, ele é maravilhoso! Daquele tipo que tem uma essência muito melhor do que as pessoas podem imaginar só conhecendo-o superficialmente ou olhando seu belo exterior. Ele é um doce, responsável, amoroso, divertido, e, mais importante, um ser humano incrível que faz lindas ações e emociona aqueles que têm coração bom.
Confesso que até certo momento da leitura estava gostando, mas ainda não adorando porque sentia falta de algo comovente que a Vi sempre traz para suas histórias. Até que Carter apresentou melhor sua vida para Kendall e, consequentemente, para os leitores. Quando pude adentrar as belas ações que ele faz, me emocionando no processo, é que fechei meu exemplar, o abracei e disse: está aí a Vi Keeland que eu conheço e adoro! Foi realmente incrível!
A escrita das autoras é muito gostosa e fluida. Suas obras são realmente daquele tipo que nos fazem mergulhar completamente na leitura de um jeito delicioso e que não vemos nem o tempo passar. Adoro o lado divertido, que sempre é o destaque de suas histórias, que ainda traz leveza à trama, e curto muito a pitada de drama que nos faz refletir e admirar os personagens.




Mulheres Na Luta - Marta Breen & Jenny Jordahl

O cenário social do mundo em que vivemos vem se modificando ao longo dos anos. Uma das mudanças mais significativas e radicais é com relação ao papel da mulher na sociedade. Se olharmos para trás na linha do tempo, nem precisamos ir tão longe para perceber isso. Há mais ou menos 150 anos, as mulheres não tinham direitos, não podiam tomar decisões sobre seu próprio corpo, mal podiam trabalhar, não tinham direito a voto, escolher coisas importantes da vida e muito menos do país em que viviam. O usual era obedecer ao “homem da casa”, fosse ele o pai, o marido, o irmão, etc.
Quando algumas mulheres começaram a ficar bastante incomodadas com o modo como eram tratadas e queriam mais direitos e mais oportunidades na vida, passaram a lutar por isso. Para chegarmos aonde estamos (mesmo que ainda falte bastante para realmente alcançarmos o patamar ideal), muitas mulheres se uniram e colocaram a si mesmas à frente dessa batalha, na luta por liberdade e igualdade.
E nessa obra, organizada e escrita por Marta Breen e ilustrada por Jenny Jordahl, temos a oportunidade de conhecer várias das mulheres que fizeram algo por nós, conseguindo proporcionar tudo o que temos hoje e que é tão diferente desse passado não tão distante.
Podemos conhecer os principais nomes na luta por direitos iguais, pelo direito à educação, pela aceitação sexual, incluindo o uso de contraceptivos, pelo direito ao próprio corpo, por inserção e igualdade no mercado de trabalho, pela participação na política e em outros cargos importantes, etc. Para isso, vamos conhecer cada uma de suas histórias e os movimentos sociais que surgiram com o apoio e a batalha delas.

Essa obra é uma Graphic Novel de não ficção, que traz diversas histórias verídicas dentro de um mesmo tema para completar o exemplar. Cada história traz ilustrações e uma cor específica, que deixaram a leitura mais dinâmica. Com uma linguagem simples, direta e fluida, esse livro é voltado para públicos de todas as idades. Desde pequeninos até adultos, todos podemos ler e apreciar esses textos.
Então, ainda que tenha um teor mais complexo e sério por se tratar de coisas erradas que as mulheres sempre viveram no passado, e que precisavam ser mudadas para conseguirmos ser nós mesmas e termos os mesmos direitos que os homens, a autora, Marta, apresentou as histórias com uma leveza deliciosa, que nos permite ter mais conhecimento de uma forma fácil e prazerosa. E as ilustrações de Jordahl ainda trouxeram um toque divertido dando a oportunidade de crianças pequenas apreciarem a leitura também.




Não Inclui Manual de Instruções - T.S. Rodriguez

Conor é um premiado autor de suspense policial, que escreveu diversos livros de sucesso durante a vida. Porém, ele não tem muitas habilidades sociais e, consequentemente, dificuldade em manter relacionamentos duradouros (tanto no âmbito amoroso quanto de amizades). Sua mãe se preocupa com o futuro e quer vê-lo feliz no amor também, então decide armar um plano bem divertido para dar uma ajudinha ao destino e encontrar alguém especial para ele.
Depois de conhecer Aidan, que combina muito com seu filho, decide que ele é o rapaz ideal para Conor, então faz diversas armações para unir os dois. Por um lado, essa relação tem tudo para dar certo: eles conseguem conversar bem, têm assuntos em comum e sentem uma atração física mútua. Além do mais, Aidan é um grande fã de Conor, que é seu escritor favorito.
Porém, a sinceridade excessiva de Conor, sua obsessão por determinados assuntos, sua falta de habilidade social e a dificuldade para entender e rir das piadas de Aidan, acabam fazendo com que a relação não seja tão fácil assim. Porém, quando sentimentos estão em jogo, aceitar as diferenças do próximo acaba ficando mais fácil. E é nesse relacionamento cheio de novidades e adaptações que eles vão descobrir a si mesmos e ao amor.
A primeira vez que olhei para esse livro, achei a capa bem fofa e fiquei interessada na leitura. Mas foi somente depois de ler a sinopse que fiquei encantada e sabia que precisava embarcar nessa obra. E foi a melhor coisa que fiz, afinal fiquei completamente apaixonada por esse exemplar!
“O amor acontece quando encontramos uma pessoa com quem podemos ser nós mesmos. [...] Queremos compartir tudo com ela. Sabemos que encontramos a pessoa certa porque a partir desse ponto, não conseguimos imaginar nossas vidas sem ela.”
Primeiramente, gostaria de dizer que esse livro traz uma trama bem simples e direta. E, com menos de cento e sessenta páginas, não há muitos acontecimentos ou revelações intensas, mas é uma história tão fofa e gostosa de ler, que enche nosso coração de paz e um quentinho delicioso, e a gente logo fica apaixonado. Com sinceridade, amei a obra!
A história é bem doce, os protagonistas são completamente carismáticos e os pais de Conor são dois amores! Com destaque para a mãe, que mesmo tendo umas ideias loucas e contestáveis, ainda assim conseguiu me divertir bastante. Dava para notar todo o carinho envolvido entre todos eles e isso foi bem bonito de ver.
Gostei bastante da escrita da Thaís Rodriguez, que ainda não conhecia. Aliás, esse foi o seu primeiro livro publicado e já fiquei bem empolgada para ler outros (no momento ela só tem mais um e está escrevendo o terceiro). Sua narrativa é leve, envolvente e muito gostosa, além de fluir de uma forma maravilhosa.
A trama traz um personagem que foi diagnosticado com Síndrome de Asperger, o próprio protagonista, Conor. Quando comecei a leitura, já tinha me esquecido da sinopse (sim, minha memória é péssima), só me lembrava que estava bem empolgada para lê-lo. Como prefiro não estragar a surpresa, não a reli. E, como eu já havia lido outros livros e séries que abordavam o tema, soube identificar de imediato o jeito de ser de Conor. Mas a “revelação” para Aidan só acontece mais para o final. E realmente adorei que a autora incluiu uma pequena explicação sobre esse Distúrbio Neurológico no Espectro do Autismo.
Gosto bastante quando uma autora traz assuntos menos populares para seus enredos e os desenvolvem de maneira leve e feliz, pois assim podemos notar que existem, sim, pessoas boas no mundo que desejam apenas o bem do próximo, independentemente de qualquer coisa. E também que todos podemos ser felizes, mesmo que sejamos “diferentes” (baseando-se na sociedade em que vivemos).



O Homem de Giz - C.J. Tudor

Eu simplesmente adoro o modo como livros podem ser caixinhas de surpresa, mesmo quando achamos que sabemos algo sobre eles, estes podem nos surpreender, tanto sobre seus temas, quanto sobre suas estórias e o sentimento que eles despertam durante a leitura. A memória que eu tinha sobre O Homem de Giz, escrito pela inglesa C.J. Tudor, publicado pela Intrínseca, era de um livro sobre um crime e os anos 80, de fato existem crimes e os anos 80, mas o livro foi bem diferente do que eu pensava.

Em 1986 Eddie era um adolescente descobrindo o mundo, ainda inocente ele se vê próximo de algumas mortes, mortes estas que não foram bem explicadas, e que no ano de 2016 ele se vê obrigado a reviver e a finalmente saber o que aconteceu entre seus bonecos de giz.

A narrativa em primeira pessoa através de Eddie é muito instigante e interessante - a cada final de capítulo, que alterna entre os anos de 1986 e 2016, nos vemos frente a uma nova revelação. E logo no começo do livro um acidente no parque já tira a perspectiva de leveza do livro. Ao contrário do que pode-se esperar não temos um serial killer, ou um único crime que permeia todo livro. São sucessivos fatos que se amarram e que aos poucos são revelados e criam cada uma das cenas de forma muito inteligente e crível.

Eddie é um personagem inocente, seja jovem, seja adulto ele não amadureceu o suficiente para ver a maldade ou a malícia das pessoas, e essa visão simplista que conduz a estória. Embora seja um homem recluso e nerd, ele possui segredos um tanto bizarros que parecem inocentes, mas que tem um toque bem macabro.

Seus amigos Gav, Nikk, Hoppo e Mickey são bastante explorados em suas personalidades que se chocam com o dia a dia dos personagem e dos principais acontecimentos da trama. Vê-los crianças e depois adultos é uma possibilidade interessante de perceber como cada um deles evoluiu diante dos fatos que passaram quando ainda jovens. E o mais interessante é que aqui não existem mocinhos, são personagens reais e dúbios, que fazem aquilo que suas paixões e emoções os conduzem a fazer.

Por conta dessas emoções os acontecimentos não são tão previsíveis, e algumas surpresas aparecem a cada passo da estória. Honestamente eu nem estava preocupada em quem era o assassino do crime principal, porque o grande destaque é a construção ao redor, o crescimento e evolução destas crianças e os adultos que estão a sua volta.

É preciso ressaltar o fato de que embora tenham crianças na trama não se trata de um livro leve. Algumas cenas podem impressionar, cenas de violência, de abuso (enquanto eu lia eu pensava sério que eles estão fazendo isso?!) e suicídio. Não são cenas extensas, e apesar do seu conteúdo achei que a autora passou seu recado sem pesar na mão, mesmo assim ela narra de forma muito objetiva os acontecimentos, sem deixar dúvidas do ocorrido.

O desfecho é ótimo, porque até personagens que parecem apenas apoio para Eddie tem uma importância e segredos para revelar. O capítulo final é sombrio, é muito macabro, não é um fato que você possa esperar de uma criança.