Dublinenses - James Joyce


Eu sempre achei a Irlanda incrível, aquelas paisagens verdes e uma cultura rica em cultura celta e galesa que vai direto ao encontro do meu coração. No entanto com o passar dos anos acabei em um amor com a Inglaterra e um flerte com a Escócia, e com isso a Irlanda ficou para trás, para alimentar meu carinho pelo lugar e conhecer um novo autor clássico escolhi ler Dublinenses, do autor irlandês James Joyce, publicado pelo selo Penguin.

Joyce escreveu este volume antes de seu famoso livro Ulysses. Embora escritos no comecinho do século XX ele só conseguiu reuni-los e publicá-los em 1914. Através de quinze contos o autor descreve a Irlanda do início do século XX em toda a sua crueza, explorando personagens da classe média católica através de diversos conteúdos e questões importantes a época.

Os fatos mais marcantes e que surgem com frequência são os atritos do país com a Inglaterra, cujo qual viria a se tornar independente em 1922. Fica muito claro através dos diálogos dos personagens que a população estava dividida entre os conservadores que buscavam o nacionalismo e o resgate cultural, incluindo palavras em gaélico no meio do inglês, e os que estavam acostumados ao domínio inglês.

Mais acentuado ainda são os problemas religiosos entre Católicos X Protestantes, já que as pessoas eram medidas pela sua escolha religiosa. A religião era assunto de roda de amigos em pubs, e o comportamento de padres, por exemplo, aparecem como um destes assunto de 'bar'.

É assim no dia a dia que cada um dos contos se constrói, são recortes de vidas,  já que não tem um começo ou fim, é como se de repente você caísse na vida dos personagens, espiasse um pouco e depois se retirasse antes de alguma conclusão. Muitas vezes a trama estava interessante e envolvente, e a estória morria no nada, como se o autor não tivesse terminado o conto. Isso foi de longe o que mais me incomodou na narrativa de Joyce, que explorou pontos narrativos tanto de terceira como primeira pessoa. A linguagem é bastante coloquial e revela a classe social ou a posição social de cada um dos personagens, além de trazer informações sobre posicionamentos políticos e religiosos.

Os protagonistas são bastante variados, começam com crianças, passando por adolescentes até os mais velhos, e isso permite uma visão abrangente da sociedade irlandesa, e o lugar que cada um deles tinha, incluindo o de mulheres e homens. Alguns deles acabam por passar nos mesmos lugares, já que todos eles se passam na cidade de Dublin. A repetição acaba criando uma sensação de familiaridade, mesmo de longe.

O tradutor teve o cuidado de colocar diversas notas para explicar locais, termos e outros aspectos culturais que auxilia e muito na compreensão da escrita. A música é com frequência evocada, e o tradutor sempre trás referências das mesmas. Não li Ulysses, mas o tradutor coloca que diversos personagens irão surgir nesse livro posteriormente, então acredito que deva ser interessante ler os contos antes de Ulysses.

Os contos que mais me agradaram são "Dois Galantes", "A Casa de Pensão" e "Um Caso Doloroso". Por se tratar de contos não darei sinopses para não estragar as breves surpresas, porque sim, elas são raras, não trata-se desse tipo de escrita que trarão grandes sensações. O valor desse livro ao meu ver é conhecer a realidade cultura daquele país, o Zeitgeist peculiar e muito característico que com certeza moldou o que hoje esse povo é. Eu me senti entre as ruas de Dublin, entre as pessoas, não necessariamente as que eu escolheria para seguir, mas não por isso que não daria atenção.

Infelizmente o modo de trabalhar seus contos não me agradou, do ponto de vista literário são em sua maioria desinteressantes e parados. Como relatei anteriormente, o potencial estava lá, mas eles nunca finalizava, não tinha um fim, uma moral ou mistério, nada. Talvez não incomode outros leitores, mas eu não me adaptei ao seu estilo. E o que me prendeu ao livro todo tempo foi conhecer a Irlanda, e isso sem dúvidas é possível através de suas palavras.

Essa edição conta com um posfácio onde encontramos o conto que foi enviado a Joyce como referência para uma encomenda de conto para a  The Irish Homestead. "O Velho Vigia" do autor Berkeley Campbell é bem curto, mas tem um começo e fim, narrado em primeira pessoa através do olhar de um garotinho.

Dublinenses é o tipo de livro que eu ainda pretendo um dia reler e talvez entender um pouco além. Mas ele não teve elementos que me fizeram apaixonar por sua escrita. Após alguns dias de lido ele já está diferente em mim, portanto, indico sim que leiam e tenham sua experiência. Que minimamente vai ser uma viagem para a Irlanda do século XX isso sem dúvida será!



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Objetos Sobrenaturais - Stacey Graham

Eu não me lembro quando foi que a paixão nasceu, na verdade eu nem sequer me lembro de algum momento da minha vida que eu não amasse o dia das bruxas e tudo que está relacionado a ele. Eu fui uma criança que se fantasiava de bruxa no Carnaval, e que chegou a ganhar o apelido de bruxinha por isso. Então fazer essa resenha especial para o Halloween hoje é mais do que seguir o tema, é celebrar um dia que reúne muito de mim, não só do ponto de vista da cultura pop, mas também do paganismo. Para comemorar esse dia tão incrível escolhi conversar sobre o livro Objetos Sobrenaturais, da autora Stacey Graham, publicado em uma edição linda pela Darkside Books.

Stacey é uma investigadora do paranormal e reúne em seu livro informações sobre objetos que tem relacionado a sua existência a situações paranormais que vão desde aparições e barulhos até situações que envolvam a morte dos portadores. Com o objetivo de explorar o tema a autora inicia seu livro com um capítulo de onde encontrar esses artefatos sombrios. E pode parecer difícil, mas a verdade é que ele pode estar em qualquer lugar desde a casa de algum parente falecido, passando por vendas de garagem chegando a anúncios na internet que vendem os objetos como sobrenaturais com provas (diz a autora que estes objetos são bem caros, e me pergunto quem gostaria de um fantasma como decoração na sala!).

Depois ela explica de maneira breve e superficial quais são os sinais de que um objeto seja sobrenatural e quais os tipos de espíritos, orientações de investigação e assombrações que existem. E aqui que fiquei chateada porque gostaria que a autora perdesse pelo menos um capítulo com estas informações, tanto a título de conhecimento, quanto para informar mais os desavisados que podem achar divertido a ideia de ter um objeto destes! Achei tudo muito raso.

Depois deste capítulo introdutório até o penúltimo capítulo o tema gira em torno de relatos em torno destes objetos. A autora organiza cada capítulo por temas, começando com bonecas, onde o famoso caso de Annabelle é explorado. E ao longo destes relatos existem diversas ilustrações que casam muito bem com o tema, trazendo um clima todo mórbido ao livro e aos relatos.

Na sequência os ossos são os escolhidos, e acredito que seja um dos objetos mais óbvios de encontrarmos resíduos, afinal pertenceram a um ser humano que não necessariamente aceitou bem sua morte, ou morreu de forma tranquila, gerando muita vezes uma energia que circunda seus restos e não os abandona. Não podiam faltar claro as famosas casas mal assombradas e seus móveis. Achei interessante que a autora traz tanto relatos bem conhecidos de quem estuda o tema quanto de histórias menos conhecidas.

Outros temas analisados são casos em pontes, navios, cidades e lugares talvez não tão óbvios, já que qualquer coisa pode ser assombrada ou guardar resíduos de seu dono ou de situações que ocorreram no local (como mortes coletivas e crimes violentos). Por fim, relatos em hotéis e que envolvam estrelas de Hollywood são lembradas. Achei marcante a história do carro do ator James Dean, este veículo tinha um gênio forte e não aceitava ser domado, é inacreditável em quantas mortes ele está envolvido.

O último capítulo trabalha com proteção, e aqui também poderia ter tido maior profundidade e cuidado da autora que foi muito, muito rasa ao sugerir maneiras de lidar com a vida após a morte que são usadas ao redor do mundo.

A narrativa da autora é bastante simples e objetiva, permitindo que qualquer um que queira compreenda o mínimo sobre o tema. Ela até parece saber mais do que diz, já que relata que faz investigações de campo, mas isso fica apenas subentendido.

Objetos Sobrenaturais é um prato cheio para quem é apaixonado pelo paranormal, mas é um prato raso para quem mais do que entusiasta é um estudante do tema, já que o livro fica apenas no superficial. Pode ser uma porta de entrada para iniciantes, e não chega a ser desperdício para quem já leu muito sobre o tema, já que existem muitos relatos interessantes e o livro é um espetáculo a parte na edição cuidadosa da editora.



H A P P Y     H A L L O W E E N    ^  ^ !!!!!!


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Volte Para Mim - Paola Aleksandra


Eu confesso, eu tenho meus dois pés atrás de livros de youtuber e blogueiro, não que estas pessoas não tenham capacidade de escrever, mas sim pelo que eles resolvem escrever. Mesmo com meus preconceitos eu não me permito não ler esses livro, e volta e meia eu escolho algum para ler. Com a Paola Aleksandra eu fui com mais credibilidade já que acompanho o canal Livros e Fuxicos e sabia que ela tinha conhecimento suficiente para escrever. Seu primeiro livro Volte Para Mim, publicado pela editora Planeta, pelo selo Essência, foi o escolhido.

Brianna Hamilton é filha de um Duque e vive com sua família na Inglaterra sem maiores problemas, até que ela precisa debutar e descobre que já existem planos para o seu futuro. A jovem, no entanto, não quer o futuro que seus pais desejam, e resolve fugir para a Escócia para resgatar suas origens. Muitos anos depois sua mãe está muito doente e ela volta para casa, e com ela arrependimentos, tristezas e culpa. Ela agora precisará se reconciliar com quem deixou e aprender a si perdoar, mas será que ela é capaz?

Bem feito para mim que mordi a língua feio com essa leitura que não só foi ótima como deixou meu coração em pedacinhos bem pequenos! Narrado em primeira pessoa alternadamente através de Brianna e de Desmond, com cartas escritas pelos personagens entre os capítulos, a narrativa é muito emocionante e carregada de sentimento. Tudo é muito intenso e verdadeiro, e foi inevitável não sofrer com os personagens.

A narrativa é tão bem descrita que a tristeza e dor dos personagens é palpável, e passei horas muito triste com ela. Os personagens se amam tanto e de forma tão intensa que não tem como não padecer com eles. Agora neste momento só de lembrar dá uma sensação de desamparo e dor no peito. Teve o famoso quentinho dos romances de época, mas menos do que eu esperava pelo sofrimento que tive com a personagem. Isso tudo é reforçado pela possibilidade de saber o que os dois protagonistas pensam na mesma cena muitas vezes.

Brianna é uma mulher forte e decidida, mesmo quando não tem informações suficientes sobre uma situação ela impulsivamente age. Mas do mesmo modo que age também é capaz de amar profundamente e perdoar. É capaz de ver o melhor de cada um, e quer o melhor de cada um. Mas jamais consegue ser uma mulher submissa ou que siga as regras. É muito ligada a natureza e a família.

Desmond é o melhor amigo de infância de Brianna, e também seu primeiro amor. Nutre um amor tão forte e denso por ela que todos os seus passos são guiados por ele, sem nunca conseguir deixar de pensar nela. Tenta ser durão e grosso, mas é um homem de empatia, coração grande e grande paixão.

Adorei toda a família Hamilton, eles na verdade me lembraram muito os The Hathaways da Lisa Kleypas, já que são pessoas que estão na sociedade, mas que não seguem seus comportamentos, muito pelo contrário, têm comportamentos bastante distintos e de personalidade.

Já li muitos romances de época e o foco costuma ser no casal, aqui temos muitas páginas deles, mas a grande estrela é a família de Brianna, a relação de cada um dos personagens e como cada um vai se resgatando e perdoando. A relação da família que gerou problemas para o casal. Com isso não existem cenas de sexo, apenas breves cenas sensuais, já que o enfoque é na relação e no sentimento. Essa ênfase diferente me agradou bastante, além de me fazer ler o livro muito, muito rápido!

O único ponto que me incomodou, e que eu não gostei no livro foi o mal-entendido do casal que os afastou. Não convenceu já que eles tinham uma relação consolidada de amizade antiga e pré supor informações sem nunca de fato checá-las ou questionar o parceiro foi um pouco de exagero. Entendo que eles eram um pouco ingênuos, mas ainda sim não fechou com a personalidade deles, muito menos com a relação que já existia.

Volte para Mim é bem desenvolvido e trilha caminhos bastante particulares sem perder as características do gênero. Mexe com as emoções e o coração para quem se abrir para leitura. Nos faz refletir sobre nossas escolhas e nossa capacidade de perdoar nossas atitudes, e mais do que isso recomeçar quando tudo dá errado.

A autora lançou esse ano um novo livro, Livre para Recomeçar, e logo darei uma chance para ele.


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O Mundo da Escrita – Martin Puchner

Como uma leitora fanática, sempre me interessei bastante pelo mundo literário. Quando descobri essa obra, que traz informações sobre a história da literatura em um mundo moldado pela escrita, fiquei muito encantada.
Martin Puchner, professor de literatura comparada na Universidade de Harvard, nos conduz, através de 16 textos, às histórias que relatam a evolução ao longo do tempo da literatura, e como ela foi importante para o mundo que conhecemos hoje, pois é a grande responsável por inspirar a ascensão e a queda do Império e nações, o nascimento de crenças religiosas e a formação de ideias políticas e filosóficas, etc.
Com isso, conhecemos mais a evolução das tecnologias criativas (alfabeto, papel, códice e impressão), a importância da literatura para a cultura humana, e viajamos com o autor para diversas histórias de revoluções, batalhas, conquistas, etc.
É um exemplar bem rico em informações e descritivo. Não considero que seja o tipo de leitura para ler de uma só vez porque pode se tornar cansativo e maçante. Mas vale a pena ser lido porque é MUITO interessante, fluindo melhor quando intercalamos com outras leituras.



Martin ainda analisa vários clássicos, como "Mil e Uma Noites", que traz vários contos populares, sendo narrado por Sherazade, que contava uma nova história todas as noites para continuar viva, Dom Quixote, de Cervantes, que foi o primeiro autor moderno, e até Harry Potter. Conhecemos a sra. Murasaki Shikibu, anônima dama de companhia da corte japonesa que criou um mundo literário e mais tarde ficou conhecida pelo nome de sua protagonista, sendo a autora do primeiro grande romance da literatura universal por volta do ano 1000.
Aprendemos também que a escrita tem um papel muito importante e uma grande influência na política. Como exemplo podemos citar quando a União Soviética e a Alemanha nazista exerceram o controle sobre a impressão, e como autores perseguidos conseguiram divulgar os seus poemas, mesmo que de forma clandestina.



Com um conteúdo fantástico, ilustrações e fotos maravilhosas, essa obra conquista. Recomendo para todos que se interessam pelo mundo das palavras e queiram aprender e conhecer mais sua criação e desenvolvimento desde o princípio, mergulharem nesse título maravilhoso, que nos mostra como a literatura transformou a civilização.

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A Casa dos Novos Começos -Lucy Diamond


Não sou o tipo de pessoa que gosta de chick-lit, já tentei alguns e em geral os acho superficiais demais para o meu gosto. E sempre que escolho alguns livro fora da minha zona de conforto da fantasia, eu me pergunto se não vou acabar me deparando com algum chick-lit. Essa pergunta me rondou durante a leitura de A Casa dos Novos Começos, da autora Lucy Diamond, publicado pela editora Arqueiro, na coleção Romances de Hoje.

Na cidade inglesa litorânea de Brighton três mulheres com diferentes estórias se mudaram para o mesmo apartamento elegante. Nenhuma delas se conhece, mas todas estão no mesmo processo de recomeçar, seja por relacionamentos perdidos, seja por um emprego do namorado ou por um luto. Todas elas estão perdidas quanto seus lugares no mundo, mas quando suas jornadas convergem seus lugares ao sol começam a ser trilhados.

Rosa já é bem sucedida em Londres e estava em um relacionamento que a satisfazia até esbarrar em um segredo que a faz mudar não só de cidade como de carreira. Seu segredo no entanto embora demore a ser dito com todas as letras logo fica claro para quem lê, e sua mudança de carreira foi o modo como ela conseguiu se sentir útil ao mundo e sublimar o que aconteceu. Seus trechos no restaurante são terríveis já que ela possui um péssimo chefe, e senti falta de maior descrição dos alimentos que rondam a personagem. Normalmente quando um protagonista se envolve com comida a fome é despertada, não foi esse o caso.

Georgie é uma jovem que mora com o namorado até que ele resolve passar seis meses no Sul para um projeto de arquitetura. Meio que sem convite ela segue junto com o namorado, e se vê sem emprego ou dinheiro em um lugar que não conhece ninguém. Um pouco impulsiva ela parte em busca de um trabalho que sonhava em ter, escrever para uma revista, e para tanto acaba sendo desleal com quem ama. Não me entrou na cabeça como ela teve tantas falhas com o namorado! Eu só pensava: "não fala com ele, isso vai terminar mal!".

Por fim conhecemos Charlotte que marcada por um tragédia tenta recomeçar. Seus capítulos são os mais tristes, mas ao mesmo tempo alguns dos trechos mais legais por conta de sua vizinha idosa Margoth que com um espírito aventureiro e despojado guia Charlotte para caminhos que jamais imaginou.

A narrativa em terceira pessoa alterna capítulos focados em cada uma das personagens, até o ponto em que elas se conhecem e passam a aparecer nos capítulos uma das outras. A estória se desenrola de forma rápida, mas muito previsível, não tem surpresa em momento algum. A autora não tem um jeito envolvente de escrever, embora até diga como um lugar é, não o faz de forma a envolver e nos fazer querer conhecer o lugar.

Quando um personagem surge fica logo evidente seu papel e como ele termina na trama. Isso foi um pouco frustrante, e acabou com qualquer possibilidade de densidade. Isso porque o livro tem uma atmosfera marcante de chick-lit mesmo com temas mais densos, e estes temas nunca se aprofundam o suficiente para serem dramas, ou ainda trazerem algum mistério para prender. Tudo é como esperado.

A amizade das três mulheres é pouco explorada, e tudo se torna flores muito rápido. Elas demoram a se conhecer, e quando o fazem tudo está caindo, mas de repente tudo se resolve, e todo mundo se adora. Isso soou um pouco forçado, e fez falta um pouco de desenvolvimento. Uma amizade se constrói aos poucos, e poderia ter começado logo nas primeiras páginas do livro.

A Casa dos Novos Começos é sobre novos começos, mas para quem já é leitora assíduo pode soar como casa dos clichês, onde todos terminam felizes para sempre após as dificuldades da vida.



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Vozes do Joelma - Marcos DeBrito, Marcus Barcelos, Rodrigo de Oliveira e Victor Bonini


Desde a minha infância eu ouço meus pais contarem sobre o incêndio do edifício Joelma, para eles foi muito impactante ver o prédio em chamas e pessoas se jogando das janelas. Mais velha, a cerca de três anos no enterro do meu avô eu passei pelo túmulo das treze almas no cemitério onde ele fica, que por sinal é bem perto da minha casa. Assim esse assunto acabou sendo familiar a mim e fiquei muito curiosa com a proposta do livro Vozes do Joelma, com contos dos autores Marcos DeBrito, Marcus Barcelos, Rodrigo de Oliveira e Victor Bonini, publicado pela Faro Editorial.

Antes de falar sobre cada conto preciso contextualizar o acidente. O edifício Joelma foi construído em 1971 na região central da cidade de São Paulo. E já em fevereiro de 1974 sofreu um incêndio que deixou 187 mortos e mais de 300 feridos. Este é considerado o terceiro pior incêndio em arranha-céu por vitimas fatais do mundo. Após todo o incidente diversas lendas, boatos e estórias surgiram tanto quanto ao local onde o prédio foi construído, quanto de barulhos e aparições no prédio na atualidade, assim como vozes e aparições na região do túmulo das treze almas. São baseados nesses relatos que os autores se inspiraram para criar seus contos.

O livro apresenta quatro contos com apresentação dos mesmos pelo autor Tiago Toy em uma narração em primeira pessoa com se fosse a morte. Gostei bastante de suas introduções que provocam o leitor sobre sua própria natureza. O primeiro conto é do autor Marcos DeBrito, um dos meus autores nacionais favoritos, sua estória se chama Os Mortos não Perdoam, nela ele relata o crime do poço em uma versão mais assustadora. O crime do Poço foi um crime que ocorreu em 1948, onde um químico matou sua mãe e suas duas irmãs e as escondeu em um poço.

Minha maior expectativa era com o conto deste autor, já que tinha gostado do que tinha lido anteriormente, mas narrado em terceira pessoa seus escritos não me empolgaram. Não trata-se de uma narrativa ruim, mas sim bastante branda e básica. Acostumada com uma escrita mais visceral, sangrenta e criativa de DeBrito, achei o conto sem sal e sem tanta criatividade. Ele pouco ousou além dos fatos reais do crime. E uma curiosidade a residência onde aconteceu o crime é muito próxima ao edifício Joelma, mas não é o mesmo terreno.

Seguimos com Nos Deixem Queimar do autor Rodrigo de Oliveira, que narra em detalhes o momento do incêndio criando uma versão do porque o incêndio se iniciou. Devo dizer que ele conseguiu me enganar bem durante todo a narrativa em terceira pessoa, e não imaginava pela virada final. Assim ele me agradou mesmo me fazendo sentir que estava para ser queimada a qualquer momento com os personagens, já que ele não nos poupa da violência ou realidade que os personagens vivenciam. A protagonista Samara passa por momentos terríveis e vamos ao seu lado até o final!

O meu conto favorito foi o terceiro, Os Treze, que se passa aqui perto no cemitério São Pedro, onde as Treze Almas foram enterradas. A narrativa em primeira pessoa ajuda muito na empatia com a experiência do protagonista, Amilton, que após maus bocados na vida acaba por trabalhar no cemitério e teve experiências sobrenaturais depois que recebeu os treze corpos em seu terreno. Tanto do ponto de vista do personagem que teve uma vida sofrida muito próxima da realidade quanto da trama dos espíritos em si, Marcus Barcelos conseguiu despertar a curiosidade e o suspense onde a jornada terminaria.

O Homem na Escada, do autor Victor Bonini, fecha o livro. Não é baseado em nada da realidade além de se passar no prédio do incêndio, na verdade é uma versão alternativa onde o edifício ao invés de ser reformado, é invadido e vira uma ocupação, onde um espírito estranho parece ser responsável por crimes. Uma das ocupantes vê sua filha sofrer na mão de seu namorado e toma atitudes estranhas.

Não gostei do conto, primeiro porque o autor criou sua narrativa em primeira pessoa através de uma moradora que hora falava de forma chula e muito coloquial, ora fala de forma normal,  e a inconstância me incomodou. Segundo que a trama não me despertou empatia, a protagonista não era uma pessoa interessante, as cenas eram sujas e feias, e o autor não poupa detalhes nojentos o tempo todo. Foi um alívio terminar, mas deixo claro que foi muito mais uma questão pessoal do que de problemas com a escrita.

A edição do livro está bem trabalhada com algumas imagens  no começo de cada conto. Acho que o livro poderia ter contado com um posfácio onde poderiam ser explorados fatos reais como, por exemplo, como foi o crime do poço, como se deu o incêndio e etc. Isso não só enriqueceria o livro, como também seria uma memória da estória de São Paulo. Eu, por exemplo, na ausência destes dados tive que pesquisar para conhecer quais eram as verdades e quais partes eram da criação dos autores.

Vozes do Joelma tem uma proposta muito interessante com seus contos e trás nomes de destaque do gênero. Além de nos envolver com estórias sangrentas também preenche lacunas de porquês que talvez nunca tenham sido respondidos. Além de trabalhar com a boa e velha ficção também evoca a memória daqueles que se foram e ficaram na história da cidade.


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O Enigma de Blackthorn - Kevin Sands

Não tem nada pior do que ler um livro com tempo para acabar em mente, isso acontece, as vezes temos metas pessoais a cumprir e nos colocamos nessas ciladas, mas também não tem nada mais gostoso do que devorar um livro rápido e nem se dar conta das suas páginas. O Enigma de Blackthorn, escrito pelo autor Kevin Sands, publicado pela editora Leya, é um destes livros que devoramos sem perceber!

Christopher Rowe é um aprendiz de boticário, por três anos ele tem aprendido com seu mestre não só o ofício de criar poções como também a resolver enigmas e códigos complexos. Mas uma misteriosa seita ameaça os boticários de Londres, o rastro de mortes chega muito próximo a botica Blackthorn, e Christopher terá que usar seus dons e habilidades para descobrir o grande segredo por trás destes assassinatos.

Sands foi muito feliz em sua narrativa em primeira pessoa através de Rowe, tudo se desenvolve de maneira muito rápida e inteligente, e a leitura passa muito ligeira sem esforço. O mistério e as maneiras como ele se esconde através de pistas e enigmas também ajudam a prender a atenção, e fazer com que a leitura nos prenda e também querer chegar logo ao fim. Mas essa mesma característica que fez tudo fluir bem acabou pecando ao seu final. Sim o desfecho acontece e nele faltam dados para explicar como o jovem conseguiu chegar a suas conclusões de quem era o mentor dos assassinatos.

Christopher é órfão, viveu até os onze anos fugindo de tapas e trabalhando na cozinha do orfanato até ser aceito pela guilda dos boticários, e ir trabalhar com o mestre Blackthorn. Muito esperto e inteligente ele aprende rápido o que seu mestre o ensina, além daquilo que não é dito ou proibido. É essa perspicácia que o ajuda a sobreviver e desvendar o mistério. Por ainda ser jovem ele ainda não teme de forma muito realista por sua vida, apenas quer desvendar o mistério que lhe foi confiado.

Seu melhor amigo, Tom, é filho de um padeiro, e é seu fiel escudeiro em todas suas aventuras, mesmo depois que ele fica com sua cabeça a prêmio. A lealdade entre os meninos é muito legal, e é a partir das divagações de Tom que Rowe acaba conseguindo chegar a muitas conclusões, além de suas ajudas factuais.

O Mestre de Rowe tem breve atuação, e lamento por isso, porque adoro personagens sábios e mais velhos que tem muito a transmitir. Gostaria muito que ele tivesse tido mais espaço, embora ele acabe por aparecer indiretamente durante todo o livro. E temos até uma personagem pomba, Bridget, é uma das pombas que moram na casa de Rowe e que sempre aparece para ajudar o garoto.

Os demais boticários e aprendizes que aparecem não ficam tempo suficiente para nos apegarmos a nenhum deles, seja positivamente ou negativamente. A narrativa é bem focada em Christopher e Tom, e claro a todo o enigma que é o carro chefe do enredo.

A edição da Leya está bem interessante, com muitos símbolos em toda parte, ficou bem bonita. Durante a narrativa os enigmas que aparecem através de símbolos também aparecem desenhados, isso nos aproxima do mistério, e nos convida a desvendá-lo junto com Christopher.

Ainda há muita estória a ser explorada neste universo na Londres do século 17, com seu realismo dos dias medievais e seus humores para descrever doenças, mas com um pequeno toque fantástico quanto a arte desenvolvida pelos boticários e alquimistas. E de fato a estória continua com mais três livros lançados Mark of the Plague, The Assassin's Curse e Call of the Wraith. Espero que os livros não demorem a serem lançados por aqui, mas a verdade é que parece que a Leya não vai dar continuidade a série depois de tanto tempo =/!

O Enigma de Blackthorn é um infanto-juvenil muito gostoso de ler, feito com muitos detalhes e com um excelente ritmo. Surpreende na sua franqueza e no seu universo tão colado ao real. É divertido, é misterioso e nos impede de largar até que o fim se descortine.


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Deixada para Trás - Charlie Donlea


No ano passado comecei meus contatos mais diretos com publicações de investigação policial, quando surgiu a oportunidade da leitura de Deixada Para Trás, do autor Charlie Donlea, publicado pela Faro Editorial, eu entrei de cabeça na leitura.

É o fim do verão em Emerson Bay, uma festa no lago é a celebração do fim da estação e todos estão presentes, assim como Nicole e Megan. Seria apenas mais uma festa, mas estas duas adolescentes somem sem deixar vestígios. Após semanas de buscas e sem mais esperanças de encontrá-las vivas, Megan consegue fugir de seu cativeiro. Um ano se passa, Nicole nunca é encontrada, mas Megan se transforma em uma celebridade após lançar um livro sobre seu sequestro. Lívia, a irmã de Nicole, estudante de patologia forense, não se conforma com a perda da irmã, e após a autópsia de um corpo suspeito de homicídio ela encontra a ponta de um fio que pode levar a estória do desaparecimento da irmã e começa a investigar.

 Parece que cada dia mais os livros se tornam previsíveis ou perdidos dentro de suas estórias, e ao ler Deixada Para Trás eu me surpreendi dando cinco estrelas para o livro. A narrativa de Donlea é ótima, e ele consegue através de capítulos alternados entre o tempo presente e o passado nos apresentar uma trama que instiga e nos prende do começo ao fim. Todos os capítulos terminam em descobertas, o que nos faz não querer parar a leitura.

Feita em terceira pessoa, a narração é dinâmica e pontuada com muitos diálogos. Os capítulos no passado são em sua maioria através do olhar das adolescentes, e mais para o fim da trama começam a ter o olhar do criminoso em questão. Já no presente é essencialmente os olhares de Lívia e Megan que predominam, com alguns capítulos breves sob a ótica do criminoso.

Ter estes poucos capítulos onde conhecemos os pensamentos do criminoso é muito rico para compreender todo o contexto dos crimes, e doentio também já que algumas vezes ele está com uma vítima. O autor também foi bastante feliz em mostrar como Megan foi profundamente marcada pelo sequestro, mas não de uma maneira clichê, que seria por exemplo ter medo de ficar sozinha ou sair, mas através de uma garota que tenta arduamente ser normal para os pais e o mundo que a cerca. Para quem gosta de personagens femininas de poder Megan e Lívia são assim.

Megan conseguiu escapar do bunker que era mantida presa, mas embora curada fisicamente sua mente ficou presa no local, já que diversos lapsos sobre o que ocorreu ficaram em sua mente. E é através de sessões de hipnose que ela começa a desvendar o crime, e resgatar a si mesma do escuro. É uma jovem forte em vista de tudo que passou, e não foge de procurar respostas e punição para quem a manteve presa, mesmo quando ela se lembra de fato quem o fez.

Lívia sofre uma transformação grande e visível ao longo da trama, de estudante dedicada a patologia que visava ser a melhor, passou a pessoa sensível ao drama familiar dos parentes da pessoas que realiza autópsia. Não mede esforços para encontrar a irmã, ela só queria poder através do corpo da irmã descobrir o que aconteceu a ela. E o melhor nada de romance para ela, apenas investigação e empoderamento feminino.

Normalmente a vítima não é alguém ruim, mas Nicole é a garota insuportável da turma. Sofrendo por conta das questões de sua adolescência acaba por se envolver com um grupo de pessoas (devo acrescentar que esse grupo é muito peculiar e bizarro, e espero que não haja paralelos em nosso mundo real), onde conhece um jovem que é sua ruína. Ele só alimenta os aspectos ruins de sua personalidade, e acaba trazendo o desfecho ruim para Nicole. No fim por ela ser esta pessoa que ninguém gosta não torcemos por ela, mesmo sua irmã ao longo da busca percebe que sua irmã não era o que pensava.

As cenas de autópsia, em sua maioria no começo da narrativa é bem descritiva, e não muito agradáveis, mas nos transportam a esse universo particular. As sessões de hipnose de Megan são breves, mas carregadas de emoção. A edição é muito bem feita, os capítulos do passado são em páginas acinzentadas e as do presente brancas, e as partes iniciadas com diálogos que nos dão spoilers do que esperar das próximas páginas.

Donlea foi extremamente feliz em como escolheu conduzir sua estória, em como escolheu personagens coadjuvantes para aos poucos montar o quebra cabeça sobre a noite dos sequestros. Peça por peça ele nos permite compreender quem era quem, e como todos acabam envolvidos. Em um ritmo adequado, sem nos cansar e nos deixar muito tempo no escuro. Não fui feliz em descobrir quem era o sequestrador, e sim foi uma surpresa. Logo o desfecho do livro me agradou dentro do possível depois de tantas mortes. Mas é sempre assim, um serial precisa realizar algumas mortes para ser pego.

Deixada Para Trás é um thriller inteligente, bem construído e que me fez querer explorar mais este gênero. Não se assuste com o tamanho, ele é um livro que vai descortinar mais rápido que imagina, e quando perceber vai querer mais páginas do autor. A Garota do Lago que me aguarde!



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O Homem de Areia - Lars Kepler


Todo mundo que me conhece sabe que minha maior paixão são as fantasias, em todos os seus estilos e tipos, mas se têm uma temática quando se trata se série que consegue fugir desse lugar comum a mim são as séries policias de investigação. Simplesmente adoro passar capítulos investigando quem matou e porque matou alguém, conhecer famílias e seus problemas, entrar na mente de criminosos e explorar as cidades onde eles ocorrem, afinal sou psicóloga não sou, e agente têm dessas coisas de explorar onde alguns não conseguem olhar. No entanto quando o assunto são livros são poucos de investigação policial que eu já li, e para modificar isso li O Homem de Areia, escritor por Lars Kepler e publicado pelo selo Alfaguara.

Em meio a inverno rigoroso de Estocolmo surge um jovem desnorteado entre os trilhos de trem, isso se torna mais peculiar quando descobrem sua identidade, ele é Mikael Kohler-Frost que sumiu treze anos atrás sem deixar vestígios junto com sua irmã mais nova. Joona Linna foi investigador do caso, e ele volta para o caso para compreender onde o jovem esteve e onde pode estar sua irmã. Com esse objetivo ele volta a enfrentar suas próprias sombras e o criminoso serial Jurek Walter que parece conhecer todos os segredos de quem encontra.

Invés de ter uma sinopse na parte de trás do livro a editora colocou diversas opiniões sobre o livro, confesso que me deixei influenciar por elas, e aguardei o pior do livro no sentido de cenas fortes. Elas existem, mas são bem menos frequentes do que eu esperava, ainda bem já que as que existem já nos perturbam o suficiente, isso porque os crimes ocorridos relacionados a Jurek são bastante perturbadores, e o livro tem aquele clima pesado de país escandinavo no inverno, um tanto claustrofóbico.

Narrado em terceira pessoa conhecemos todo o caso desse serial killer desde quando ele foi preso a treze anos atrás até o momento atual onde Joona começa investigar um suposto parceiro do homem. Seu plano é ousado e envolve riscos, mas ele está certo de que corre contra o tempo para libertar a irmã de Mikael, Felicia que como o irmão pode estar presa e doente.

Saga Bauer é a policial escolhida para a missão, mais quando ela se vê diante de Jurek ela deve enfrentar mais do que um homem sem limites, ela confronta as sombras do próprio passado e não pode cair ao mesmo tempo em que luta contra o tempo. Joona é um investigador experiente e responsável pela prisão de Jurek, essa prisão o leva a atitudes drásticas no seu passado que o assombram até o presente, logo o que ele mais quer é colocar um ponto final para o caso. É um homem muito inteligente e passional.

Jurek, o criminoso está sempre um passo a frente de todos, e consegue manipular com precisão e maestria todos a sua volta. Com uma capacidade de despertar as sombras das pessoas e fazer com que elas se voltem contra elas, ele consegue mesmo preso provocar estragos. Seu passado é um mistério que precisa ser iluminado para quem saber se fazer compreender suas atitudes.

Com capítulos muito curtos os autores seguem direto ao ponto sem nos deixar respirar ou divagar, a estória segue sempre em ritmo constante no dando sempre informações para elaborar o caso. O desfecho do caso é surpreendente, e somos pegos de surpresa quando todas as peças se encaixam de forma inteligente e não previsível, sem soar forçado ou esdrúxulo.

Em alguns momentos cheguei a me questionar se algum elemento sobrenatural iria aparecer, já que o personagem que dá nome ao livro não parece de fato existir, embora seus atos estejam constantemente aparecendo. Na reta final do livro no entanto isso se explica, mas essa vacilação entre o real e a fantasia adiciona à atmosfera do livro mais suspense e mistério.

O Homem de Areia é um thriller sufocante onde esperamos sempre o pior, não no sentindo de qualidade literária, mas para os personagens que seguem tateando no escuro com medo de uma sombra sem nome, afinal todos temos medos que quando a luz se apaga surgem com força para nos assombrar!


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A Última Camélia - Sarah Jio


Eis aqui o exemplo de livro que a capa engana o leitor, A Última Camélia, da autora Sarah Jio, lançado pela editora Novo Conceito, parece ser um romance água com açúcar, mas não julgue o livro pela capa, porque não é sobre isso que essas páginas nos conta.

Flora, uma jovem americana sonha em trabalhar com as plantas, mas ela percebe que os negócios dos pais não vão bem, e decide aceitar uma proposta de trabalho na Inglaterra. O trabalho envolve trabalhar como babá na Mansão Livingston e descobrir onde está plantada uma camélia rara, muito cobiçada pelos comerciantes de flores. O que ela não esperava era se envolver com a família que perdeu recentemente sua matriarca. Sessenta anos depois Addison, uma paisagista vai parar com seu marido na mesma mansão, ele para se inspirar em seu romance novo, ela para fugir de seu passado que a persegue. Mas o que a estória de duas mulheres distantes tem em comum? O que esta Camélia rara vai fazer com a vida das duas nesta mansão tão repleta de tristeza e dor que esconde uma grande mistério?

A narrativa de Jio é feita em primeira pessoa com capítulos alternados entre Flora e Addison de forma muito emocional, já que ambas mulheres carregam uma forte carga emocional. Flora por deixar os pais nos EUA e estar traindo sua própria ética ao buscar a flor em uma casa com crianças que acabaram de perder a mãe, e Addison por sua adolescência marcada pela violência e morte que voltou a assombrá-la pelo homem que cometeu esses crimes.

Gostei especialmente de como a autora conseguiu narrar uma estória com um clima de mistério continuo. Todo mundo esconde algum acontecimento do passado que quer esquecer, e ao mesmo tempo seguir em frente. Até a última página ela consegue nos deixar presos a trama, sem entregar muito e ser previsível. Muito foi dito sobre os personagens, mas muito ainda poderia ser dito, e ao contrário do que poderia soar não fez falta, mas também não faria excesso, é uma narrativa equilibrada.

Flora é uma jovem muito doce e com muita empatia, quando conhece cada uma das crianças já decidiu em seu intimo seguir com a missão de ajudá-las e perde de vista a busca pela camélia. Ela consegue promover pequenas transformações nesta família, mas não consegue ficar em paz sem saber como estão seus pais do outro lado do oceano. Seu amor pelas plantas é uma das ligações com Addison no futuro.

Já Addison vive uma nova vida, com um novo nome, mas sem contar ao marido o que passou, assim ela vive todo tempo com medo do homem do passado que a ameaça, ao mesmo tempo em que quer se dedicar ao jardim da mansão. Seu maior problema é a falta de atitude, no passado sua passividade casou morte, no presente ameaça seu casamento.
O mistério central que perdura por todos estes anos que envolve a morte da matriarca, Lady Anna e a camélia rara é muito instigante e prende a atenção ao livro. Os links através do tempo são bem desenvolvidos, as vezes citados em um tempo e explicados em outro. Tudo transcorre de forma suave e pensada. O desfecho é muito bonito e trás uma mensagem de esperança.

Os personagens secundários como funcionários da mansão e as crianças, além do marido de Addison têm personalidades bem definidas e despertam atenção para suas características. Lady Anna é um mistério até o fim do livro, sua atmosfera misteriosa é presente, mesmo muito diferente das mulheres da sua época ela parece ter deixado a todos apaixonados por sua pessoa. A Sra. Dilloway é a governanta da casa e aparece nos dois tempos do livro, com muita culpa pelos atos cometidos ela pega como missão cuidar do jardim na ausência de Anna e também guardar seus segredos.

O lorde no passado e sua relação com o jardim e a camélia me lembrou um pouco do livro o Jardim Secreto, em ambos temos um homem amargurado e um jardim que marca sua tristeza, entretanto as semelhanças param por ai, já que as estórias caminham de maneira bem diferentes.

A Última Camélia é um livro breve, mas nem por isso menos impactante. Passado na época da segunda guerra consegue transmitir mistério, angústias e o terror que aquele momento teve ao mesmo tempo em que no presente trabalha com os fantasmas modernos. No fim sempre sabemos o que é certo, mas como a autora nos lembra o difícil é fazer, é transpor a teoria para a prática. O difícil é ter coragem de enfrentar os que nos oprimem e ameaçam, sejam com palavras ou atos. Mas uma vez que nos empoderemos de nós mesmos não há medo ou insegurança que irá perdurar!



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A Pequena Livraria dos Sonhos - Jenny Colgan

Existem livros que são compostos por ingredientes quase infalíveis, e para nós leitores arrisco dizer que um desses ingredientes são livros que falam sobre livros, sobre o amor que todos nós temos para com esses filhotes. Aliado a esse fato junta-se aos livros o Reino Unido, no caso Inglaterra e Escócia e temos A Pequena Livraria dos Sonhos que me conquistou antes mesmo do começo desta leitura! Escrito pela escocesa Jenny Colgan e publicado pela editora Arqueiro na sua nova coleção Romances de Hoje, este livrinho tinha tudo para me arrebatar!

Nina Redmond é feliz como bibliotecária, mas sua biblioteca vai fechar e seu emprego deixar de existir, sem saber como se adequar a nova demanda do mercado das poucas bibliotecas que restaram, após um treinamento ela parte em busca de realizar um sonho, e ter sua própria livraria. Um anúncio chama sua atenção e a ideia de uma livraria itinerante surge, mas a van que escolheu está na Escócia, nas Terras Altas, e uma viagem que era apenas para um compra muda completamente sua vida!

Eu gostaria de conseguir dizer em palavras o quanto foi gostoso e gratificante a leitura deste livro, mas talvez ele tenha me feito tão bem pelas diversas identificações que gerou em mim. A narrativa de Colgan é bastante fluida e cativante, ao mesmo tempo em que ela atribui adjetivos a lugares, pessoas e situações a autora não impede que a estória siga. Além de definitivamente saber o que é amor pelos livros elevado ao cubo, já que a protagonista Nina é obcecada por livros ao ponto de ser intimada pela sua companheira de casa a tirar os livros da casa com medo que o segundo andar da casa desabe de tantos livros!

Impossível não criar identificação com Nina, leitura assídua que se isolou do mundo e das pessoas para passar todo seu tempo livre lendo. Os livros são sua defesa, seu felicidade, e sempre eram resultado para tudo em sua vida. Quando ela se vê obrigada a interagir com as pessoas além da rotina da biblioteca, Nina também começa a se descobrir, saber do que gosta, o que sonha e espera de sua vida, o que antes era só rotina, depois se tornou uma aventura cheia de novas experiências.

Lennox o dono do celeiro que Nina aluga é o típico cara que passou por um tristeza, se fechou e ainda é rabugento e cheio de manias. Ele é presença constante nas cenas, e muitas vezes criador de grandes tensões na vida da livreira. Seu amor por seu animais é encantador, e sua dedicação para que a fazenda da família siga adiante também. A melhor amiga de Nina,  e sua companheira de casa em Birmingham, Surinder, é quem sempre tenta puxá-la para a realidade, para fora dos livros e da fantasia. É uma personagem divertida e sincera.

Boa parte da trama se passa em um vilarejo nas Terras Altas da Escócia, e imaginar aquele lugar lindo e cheio de tradição traz muita magia ao livro. Cada personagem é explorado para trazer toda a identidade do local, seus costumes desde os seus trabalhos em fazendas até festas e alimentação. Eu fui me apaixonando pela pequena vila junto da personagem que se deslumbra com as paisagens, seus animais, plantas e moradores.

Existe um pouco de romance na trama, sim, mas de uma forma um pouco diferenciada, já que os pretendentes mudam, e não seguem o padrão esperado de mocinhos. A situação em que Nina conhece o primeiro homem é bastante diferente e inesperada. O segundo já segue o padrão mais clichê, e alvo da minha única reclamação do livro, quando ela muda de pretendente as coisas se desenrolam um pouco rápidas demais, mesmo que o livro não tenha como foco principal a vida amorosa da moça um pouco mais de tempo seria bem vindo na relação.

Colgan ainda trabalha na trama com um dupla de crianças que moram no vilarejo e demonstram problemas familiares. É um núcleo triste e que fez com que Nina se envolvesse mais ainda com o lugar que passou a morar, e também mostrou a união das pessoas que moram neste local tão distante.

A Pequena Livraria dos Sonhos é uma estória para aquecer o coração, também é sobre mudanças e coragem. Sobre como refazer toda sua vida quando ela te dá uma rasteira, e como partir atrás de seus sonhos mesmo quando sucessivas quedas acontecem. Mas acima de tudo é uma estória sobre amor aos livros!

Acabou de sair o segundo livro da autora pela Arqueiro, A Padaria dos Finais Felizes, e mais uma vez ela vai me acertar em cheio quando escolheu comida para pano de fundo de sua trama!


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