O Retorno do Imperador - O Mundo de Quatuorian #02 - Cristina Pezel

Na grande maioria das vezes eu resisto muito a ler um segundo volume de uma série que começa ruim, na grande maioria das vezes eu nem sigo com a série, mas as vezes eu persisto em alguma, sabe-se lá porque algumas ganham uma segunda chance. A série O Mundo de Quatuorian não me cativou em seu primeiro livro, mesmo assim li o segundo volume O Retorno do Imperador, da autora brasileira Cristina Pezel, publicado pela editora Mundo Uno.
A situação em Quatuorian está caótica, após a tomada de poder duvidosa de Vorten, todos os locais têm sofrido ataques de animais, e a guarda do Imperador têm prendido todos que ousam levantar a voz. Para combater as trevas Terivan, Julenis, Vinich e seus mestres procuram cumprir a profecia e despertar um antigo imperador, o único capaz de combater o mal.
A narrativa de Pezel realizada em terceira pessoa melhorou em relação ao primeiro volume, mas ainda não conseguiu me agradar como uma fantasia me agrada. Parece que existe um vazio que nunca é preenchido, e para explicar ele tenho algumas teorias. Primeiro a autora realizou em dois livros curtos uma estória que normalmente qualquer saga levaria muitas páginas para narrar, assim tudo foi muito rápido e pouco explicado, faltando uma das características que mais me atraem em fantasia: explicações detalhadas e sem pressa, com tamanha riqueza que nos transporta para outros mundos. Infelizmente nesse mundo eu sempre me sentia correndo atrás da estória, em ligar seus pontos, e me lembrar quem era quem, e fazendo o que.

Segundo, a autora ainda tem um estranho modo de começar seus capítulos que parecem não levar a lugar algum, e que depois acabam mostrando qual eram seus objetivos. Todos os capítulos são curtos, nenhum deles se demora mais do que cerca de seis/ oito páginas, e junto a isso algumas páginas têm ilustrações e diagramação espaçada, ou seja, a estória é breve, muito breve para um universo que parece ter tanto a dizer.

O primeiro livro teve falhas quanto a um foco, o segundo parecia sofrer do mesmo mal em seu início, mas depois conseguiu se focar em um único objetivo que foi deter Vorten e sua ascensão. O livro começa explicando como Vorten se tornou quem é, mas quando chega a seu ponto alto não continua, a explicação vem apenas na reta final do livro.

Uma criatura nova surge na trama, ela estava presa no vulcão. Em momento algum ela tinha sido mencionada, apenas surge quando o vilão já está próximo a região. Essa forma 'jogada' de escrita não ajuda na assimilação dos detalhes, e só reforçam a sensação de perda, de que sempre algo ficou sem relatar.

Um detalhe bom do livro que todos autores de séries deveriam fazer, e poucos fazem, é um pequeno resumo do livro anterior. No caso do resumo do primeiro livro ele foi mais esclarecedor do que o próprio livro, e me ajudou bastante a me lembrar de tudo que tinha ocorrido. No final do livro também existe um índice com os personagens, poderes, locais, termos e etc. Uma pena que tudo seja tão pouco explorado!


O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Feminismo é um assunto muito abordado hoje em dia, mas infelizmente nem sempre foi assim. Quando o termo “feminismo" nem sequer havia sido cunhado, Simone de Beauvoir escreveu e publicou O Segundo Sexo, que hoje marca a prática discursiva da situação feminina. Em textos bem reflexivos, a autora aborda no primeiro volume Fatos e Mitos da condição da mulher, já no segundo exemplar, A Experiência Vivida, examina a condição feminina em todas as suas dimensões – sexual, psicológica, social e política.

Essas obras são leituras complexas, quase que um divisor de águas para quem lê, pois esclarece vários assuntos na nossa mente, como as crenças e ensinamentos que são repassados de geração após geração como o certo, sem muito questionamento. Também nos ajuda a entender melhor o feminismo, já que muitas pessoas pensam erroneamente sobre o mesmo.

Amei ler esses títulos e os acho muito importantes para todas nós, mulheres, mas também é muito indicado para que os homens os leiam e possam compreender muitos pontos. A autora faz análises em várias dimensões para conhecermos o motivo da origem da ideia de “inferioridade” da mulher na sociedade, e traz para a gente uma lista de exemplos de espécies em que ambos os sexos são iguais, independentemente de ser macho ou fêmea.

Como Simone foi companheira de Jean-Paul Sartre, criador do conceito de Existencialismo, estava inserida no ambiente da Psicanálise e, com isso, traz uma abordagem mais crítica nesse âmbito sobre a figura feminina, utilizando termos técnicos sobre esse assunto.







O Lado Obscuro - Tarryn Fisher

Depois de ter lido alguns livros de Tarryn que conseguiram despertar diversas emoções enquanto eu lia, eis que surge “O Lado Obscuro”, obra que veio realmente para mexer com a gente. Nesse exemplar, conhecemos a história de Senna Richards, uma escritora de sucesso que na manhã do seu aniversário acorda em uma cabana totalmente estranha em meio a uma tempestade de neve, em um lugar totalmente isolado. Nesse cativeiro, ela descobre que não está sozinha, mas, sim, com Isaac, uma pessoa que foi bem importante em seu passado. E no local tem tudo o que eles precisam para sobreviver durante meses.
O exemplar é dividido em 3 partes narradas em primeira pessoa por Senna, e também temos a chance de ler alguns capítulos denominados “O Livro de Nick”, quando ele é o narrador.

Então a história se alterna entre o passado e o presente para nos mostrar um pouco sobre quando eles se conheceram, e também o agora que estão juntos naquele local. E em cada momento vamos descobrindo um pouco mais sobre a história de Senna, vemos como ela é uma mulher forte, mesmo tendo passado por muitas coisas.
Ao longo do tempo que estão passando juntos nessa cabana, vão descobrindo pistas deixadas pelo sequestrador, que mostram que esse acontecimento está relacionado a algum fato do passado de nossa protagonista.
Esse volume mescla suspense e drama em uma narrativa envolvente, que faz com que a gente não consiga parar de ler, já que autora vai soltando pistas bem aos poucos. A cada virada de página queremos descobrir quem armou para Senna, ao mesmo tempo que sofremos junto com ela.






O Mundo de Lore - Criaturas Estranhas #01 - Aaron Mahnke

No instante em que eu vi a capa do livro O Mundo de Lore - Criaturas Estranhas, do autor Aaron Mahnke, mesmo antes de ler sua sinopse, eu desejei ele na minha estante. O trabalho gráfico da Darkside Books foi de encontro ao meu gosto e despertou o desejo imediato!

A partir do premiado podcast Lore, onde episódios se inspiram nos mais diversos eventos estranhos ao redor do mundo e tempo, Mahnke explora neste volume criaturas das mais distintas origens que assustaram e geraram lendas que perduraram até hoje, algumas verdadeiras, outras tão antigas que se perderam no tempo!

Cada capítulo escolhe uma criatura para ser explorada, a primeira, por exemplo, são os vampiros, desde a sua provável origem, passando pelos principais casos registrados na história. Alguns são explicados pela ciência de hoje, outros ainda geram mais perguntas que respostas, o autor narra de forma breve e objetiva as características atribuídas a estes seres. Depois algumas histórias sinistras sobre zumbis são lembradas, e eu sempre fico aflita ao me lembrar que alguns locais ainda hoje desfilam com pessoas mortas pelas ruas como se elas ainda fossem vivas, mas elas já morreram faz tempo!

Entre cada caso, lenda e situação o autor joga a verdade ora fazendo o leitor acreditar que tudo que é relatado é verdadeiro, ora atribuindo explicações muitas vezes sob a ótica psicológica do comportamento humano, tanto para acreditar nestes seres quanto para interpretar certos acontecimentos. No final ele sempre deixa as respostas em aberto para serem interpretadas, sem acreditar ou desacreditar do que narra.

Os relatos se focam muito nos Estados Unidos, mas diversos países são citados, que é o caso do capítulo seguinte que se foca em criaturas pequenas, como os elfos na Islândia, ou os duendes da Irlanda. Em sua grande maioria os nomes específicos atribuídos a essas criaturas são citados, e nomes genéricos não são usados. Neste capítulo em específico, onde criaturas do meu maior interesse são trabalhadas, alguns relatos me eram conhecidos, mas alguns foram novos.

Na sequência são citados seres que parecem animais, mas que não tem comportamento e aparência comum, aqui alguns relatos lembram lobisomens ou híbridos de homens e animais. Criaturas marinhas também aparecem, e talvez sejam entre todas a menos questionadas, já que nas profundezas de rios e mares o desconhecido impera.

As situações não param apenas nessas criaturas vivas, um caso de um boneco possuído também é narrado detalhadamente, assim como da famosa Annabelle. Seguem-se casos que ficam entre criaturas desconhecidas e fantasmas. Até culminarem nos espíritos, que têm diversos relatos com diversos enfoques, alguns de origem de pessoas mortas, outras com aspectos demoníacos.

O livro possui uma vasta bibliografia, que é muito interessante para aprofundar os temas. E como comecei dizendo tem um trabalho gráfico incrível! Repleto de ilustrações que trazem um ar único ao livro, são extremamente fofas e macabrinhas. O volume é todo nas cores preta, branca e vermelha, além de contar com o corte em vermelho. É um livro tão lindo que eu me pegava apenas admirando cada detalhe e não o lendo.

Infelizmente o livro é muito breve, e só deixou um gosto de quero mais, já que os temas são muito interessantes e o modo descontraído que o autor narra cada um deles é muito atraente e fluido de ler. A série O mundo de Lore têm outros dois volumes, Wicked Mortals e Dreadful Places, e espero que a Darkside traga logo eles para cá com o mesmo cuidado que este primeiro volume.


Criaturas Estranhas é uma união que todo leitor de fantasia, terror e sobrenatural vai amar ler e saber. É uma obra de arte do ponto de vista gráfico, e um bom ponto de partida para começar a estudar as criaturas abordadas. É diversão para os que como eu acham a noite uma criança e o sobrenatural um mundo a ser explorado.

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Contos Clássicos de Terror

Eu sempre pensei que antologia de contos são ótimos meios para conhecer novos autores, mas em Contos Clássicos de Terror elevou essa opinião muito acima, já que nessa reunião de contos feita pelo Julio Jeha, e publicado pela Companhia das Letras o contato não é com novos autores, mas com autores velhos e consagrados!

A coletânea pretende reunir o que existe de melhor dentro dos gêneros gótico, terror e horror, o livro é composto por dezenove contos onde os sentimentos despertam os mais diferentes afetos nos protagonistas que se veem nas mais variadas situações as vezes cotidianas, as vezes nunca antes imaginadas. Medo, loucura, imaginação, terror, repulsa, anormalidade e paranormalidade são alguns dos itens abordados por autores tidos como clássicos.

E ao contrário do que costuma acontecer muito não trata-se de um livro com autores somente brasileiros, ou só estrangeiros, já que Jeha se valeu de muitos brasileiros em sua seleção. E é notável a diferença entres os nacionais, que pendem para um estilo facilmente reconhecível. E para os fãs da diversidades temos tanto homens como mulheres.

O primeiro autor, por exemplo, é George Sand que na verdade é pseudônimo da baronesa Amandine Aurore Lucile Dupin, seu conto Espiridião, no entanto não chamou minha atenção. Já Morte na Sala de Aula, do autor Walt Whitman é simples e macabro, conseguindo extrair em poucas folhas o que a maldade nas salas de aula de antigamente poderia gerar.

Edgar Allan Poe não poderia ficar de fora já que está entre um dos mestres do gênero, seu conto O Barril do Amontillado, no entanto foi uma releitura, visto que já li em uma reunião de contos do autor, mas o conto não deixa de ser um ótimo registro de uma vingança a sangue frio!

Muito conhecido por suas obras A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro, R.L. Stevenson através do seu conto O Ladrão de Corpos narra exatamente o tipo de estória que esperamos para uma estória de terror, em um cotidiano de pessoas de índole duvidosa, mas onde a justiça busca através do sobrenatural ser realizada.  A Causa Secreta escrito por Machado de Assis, não aborda nenhum tema estranho, ao contrário é uma narrativa cotidiana sobre a natureza humana, natureza essa que Assis era intimo conhecedor!

Auguste Villiers de L'Isle-Adam com A Tortura pela Esperança não me agradou pela temática, a inquisição, não gosto de nada com esse tema de ignorância e intolerância. Já em Bárbara, da Casa de Grebe, com o autor Thomas Hardy, tudo soava como um romance de época até que um terrível acidente desperta a loucura! Está entre meus favoritos pelo modo sutil e pontual que abordou sua estória.

Dizer nessa altura que nunca tinha lido Bram Stoker é uma vergonha, então poder finalmente conhecer sua narrativa através de A Selvagem foi um prazer! Seu conto é muito simples, mas não sem certa complexidade nos detalhes que permite uma conexão tamanha que me fez pensar na estória muitas horas depois da leitura. Mesmo nesta pequena obra é possível perceber seu talento.

H.G. Wells é um dos meus autores do coração, Pollock e o Homem de Porroh foi uma releitura, e ela mostra como foi para os ocidentais difícil compreender e respeitar a cultura e a religião dos países africanos.  A Tapera segue com Henrique Coelho Neto, autor brasileiro fundador da cadeira número dois da Academia de Letras, e que eu nunca tinha ouvido falar. Em seu conto encontramos elementos da cultura da época da escravidão e do plantio de cana de açúcar, a sua narrativa é muito característica e consegue ter falas ora rebuscadas, ora simples e regionais.

A Mão do Macaco é um conto muito comentado, escrito por W.W. Jacobs, extrai da natureza humana a ambição aliada ao macabro. É um ótimo conto! Joseph Conrad, em A Fera, tem como protagonista nada menos do que um barco que tinha um humor sádico para matar seus tripulantes. O conto do carioca João do Rio, Emoções, é provavelmente o mais sem graça de todos.

Hugh Walpole, com o Tarn, é outro conto que segue o clima esperado e teve uma ótima execução mostrando como a inveja leva um homem a cometer um crime que ninguém viu, mas que teve seu rápido retorno. Meu conto favorito (junto ao de King) sem dúvida foi o de ninguém menos que H.P. Lovecraft, com Na Cripta, foi meu primeiro contato com o autor e adorei o estilo da escrita do mesmo, e como ela conseguiu ser macabra sem ser explícito, apenas dando a entender o que se passava.

Humberto de Campos foi escolhido com Os Olhos que Comiam Carne, é um conto que parece não levar a lugar algum, mas que termina como um soco no estômago! Já Shirley Jackson, em  A Loteria segue o mesmo gênero de conto despretensioso, mas que nos deixa sem fala no final. Com Lygia Fagundes Teles, Venha ver o pôr do Sol mostra a crueldade que um homem rejeitado tem ao marcar um último encontro com a mulher que gosta.

Por fim, o livro termina com Stephen King e o conto Vovó. O meu favorito empatado com Lovrecraft. King é incrível ao criar uma narrativa que por boa parte aborda o simples fato de uma criança ficar sozinha em casa com sua avó velha e doente. Ele descreve coisas simples como a aparência da avó, e como isso assusta o garoto, é simples e genial, depois a narrativa segue para um caminho mais sobrenatural, e tem um desfecho que abre a interpretações.

Acredito que uma breve resenha de cada autor ajudaria a ambientar os contos, já que alguns deles são bem antigos e são desconhecidos do público. A edição em capa dura está bem gótica e só falha em não ter uma fita de cetim como marcador,  seria um excelente adição ao livro.

Contos Clássicos de Terror é uma reunião que vale cada página, porque permite encontros com autores consagrados e com boas estórias. Os autores escolhidos nem sempre são associados com o gênero, ao mesmo tempo que os clássicos do estilo se fazem presentes. Não existem estórias ruins, e com certeza alguma delas vai agradar ao leitor. Fã ou não do terror a leitura é para quem gosta de boas estórias e aquele friozinho na barriga pelo desconhecido!

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