Um Planeta em seu Giro Veloz - Uma Dobra no Tempo #03 - Madeleine L'Engle

Um Planeta em seu Giro Veloz, terceiro livro da série Uma Dobra no Tempo, da autora Madeleine L'Engle, continua a saga pela mentalidade peculiar da autora, e me fez pensar o que exatamente ela estava lendo na época em que escreveu sua saga, afinal é claro um punhado de referências usadas, mas não de forma muito explícita. Por tratar-se do terceiro volume contém spoilers.

A família Murry está reunida novamente para ação de graças, Charles Wallace agora tem quinze anos, e sua irmã Meg está casada e esperando um bebê. Após um telefonema de alerta do presidente americano, Charles recebe a missão de desenrolar o passado para salvar o presente de uma guerra nuclear. A bordo de um unicórnio, uma viagem no tempo atrás dos Pode-Ter-Sido é realizada pelo jovem que não conhece os perigos de visitar o passado.

Continuo minha saga de amor e ódio pela autora. Ao mesmo tempo em que admiro os temas e as ideias que ela têm, me irrito com a execução das mesmas. É como se faltasse um editor junto a autora para deixar a trama mais acessível ou lógica, já que continuam existindo momentos que L'Engle parece conversar apenas consigo mesma, fazendo com que o leitor siga no escuro deduzindo as situações, e criando relações que muitas vezes nunca são trabalhadas.

O ponto principal desta estória é o questionamento temporal. A dupla Charles e o unicórnio Gaudior visitam diversos momentos no passado de indivíduos que tinham potencial para ter feito diferença, mas que por algum motivo algo os impediu. E a ideia da viagem no tempo, o motivo e realizá-la junto a um ser mágico é ótimo, mas usar nomes iguais ou similares para cada núcleo temporal faz com que tudo vire uma grande bola de neve. Compreendo que isso trás um encadeamento, já que todos são parentes de alguma forma, mas dar nomes distintos a cada um ajudaria e muito a trama!

A viagem no tempo não é trabalhada de forma linear, ou seja, na mesma direção, como Gaudior explica: " E o quando não é importante. O que importa é o que acontece no quando". Em outras palavras eles conseguem viajar na linha temporal, mas não para lugares diferentes da onde o ponto de partida é, que no caso é uma pedra de avistamento de estrelas.

Wallace está mais velho e com isso perdeu um pouco de sua graça, sua espontaneidade não é mais a mesma, ele está menos destemido e ousado. Nem parece mais o menino super dotado que se destacava nos livros anteriores. A grande questão é a autora fez isso de forma consciente, por ele estar se tornando adulto acaba perdendo alguns de seus 'dons' ou é apena uma falha na evolução do personagem. A mesma pergunta fica quanto a Meg, uma adulta, casada e grávida que se comporta ainda como uma adolescente., embora não seja protagonista, como nos livros anteriores, ela é uma expectadora ocular, e tem comportamentos de quem ainda não envelheceu.

O livro foi feito em 1978 e já alertava quanto aos conflitos nucleares e seus desdobramentos. Mais que isso ela coloca o quanto a Terra não se dá conta que se implodir, se destruir não é apenas extinguir a vida aqui, mas também criar um efeito dominó que abalaria até outras galáxias.

Como já é característico da autora eu sempre consigo fazer interpretações diferentes das ações dos personagens. Quando Wallace vai a cada momento do tempo ela se junta ao corpo do protagonista daquela estória para viver um período com o mesmo, e de alguma forma o influenciar e aprender com ele também. A pulga que ficou quanto a isso é se ele não estava se lembrando de suas vidas passadas, onde ele era estas pessoas, então fica a pergunta...

Embora abordando diversos aspectos importantes e utilizando criaturas que até me atraem, a série para mim têm sido cada dia menos interessante e despertando cada vez menos empatia. Isso porque a autora criar um tédio no seu modo de escrita em terceira pessoa, ainda mais quando não diferencia seus personagens. Um Planeta em seu Giro Veloz é ora confuso, ora maçante, mas ainda tem aspectos que valem sua leitura para quem gosta dos temas abordados. Sigo tentando com o próximo livro da série Muitas Águas.


Avaliação







Um Vento à Porta - Uma Dobra no tempo #02- Madeleine L’Engle


Que coisa estranha é essa que os autores têm de estragar suas sagas com os seus segundos volumes?! É muito frequente, e eu já me cansei de ler livros que me fazem querer parar com série! Um Vento à Porta, é o segundo volume da série Uma dobra no Tempo, da autora Madeleine L’Engle, publicado pela Harper Collins Brasil, e sofreu essa estranha maldição do segundo livro!

Já faz algum tempo que os irmãos Meg e Charles Wallace viveram sua primeira aventura. Agora Charles já frequenta a escola, mas não está conseguindo se adaptar, seus colegas o acham estranho, e ele não compreende como deve mudar para esconder sua inteligência. Como se isso não fosse problema suficiente ele ainda está doente. Com a ajuda de Calvin e novos amigos inesperados, Meg partirá em uma viagem dentro do próprio irmão!

Em seu primeiro livro L'Engle já tinha uma escrita rebuscada para um livro infanto-juvenil, mas neste livro ela piora, não usando termos técnicos como no anterior com a física, mas aqui no seu modo de desenrolar e explicar a trama. As vezes alguns trechos não faziam sentido, e tornavam-se cansativos. A escrita até andava, mas não despertava o menor interesse ou empatia pelos acontecimentos.

A premissa do livro é muito interessante, afinal uma viagem dentro do corpo humano soa interessante. Mas a ação é tão psicodélica que nem parece acontecer dentro do corpo de uma criança de seis anos. Isso porque eles vão até uma célula convencer as  farândolas dentro das mitocôndrias a lutar contra os que tiram os nomes. Então não temos partes do corpo, ou uma jornada através de algum lugar. Eles se transportam direto para a mitocôndria, e um embate mais mental do que qualquer outra coisa acontece.

Charles Wallace o personagem mais legal da série aparece no começo e no fim do livro, assim ficamos privados de suas falas inteligentes e reflexivas. Cabe a Calvin ser o personagem mais interessante e lógico, já que Meg continua chata demais, eu diria que ela melhorou um pouco, mais bem pouco. Ela continua ansiosa e histérica, pensando depois de agir.

Algumas criaturas diferentes surgem ao longo da estória, como um querubim e um professor, mas nada se liga. A autora parece apresentar pedaços de uma mitologia que não se mostra clara ou que se ligue muito bem ao livro anterior. É tudo muito subjetivo e vago, e embora fique claro que uma força negativa visa destruir mundos, não fica clara a estrutura de seres e regras que Madeleine pretende sustentar.


A Revolução dos Bichos: Em Quadrinhos - George Orwell & Odyr

Os animais que residiam na Granja do Solar começaram a ficar cansados da exploração e dos maus tratos que sofriam pelo humano que controlava o lugar. Para transpassar este problema, decidiram se rebelar contra o dono da fazenda e tomá-la com o objetivo de instituir um novo sistema cooperativo e igualitário no local. Com o novo lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, eles têm como objetivos encontrar o melhor para todos.
Porém, depois de algum tempo, os porcos, considerados os bichos mais inteligentes, começam a perceber que podem ter alguma vantagem e por conta disso passam a querer usufruir de mais privilégios, controlando as coisas e tomando suas próprias decisões, baseados no que acham melhor para si. E é assim que, aos poucos, começam a construir um novo sistema de opressão e controle, ainda pior do que o anterior. Muitos animais não entendem muito o que está acontecendo e os que percebem acabam sendo silenciados à força. E é assim que uma nova tirania é instalada no local, mais opressiva, mais sangrenta e com menos sentimentos de esperanças.
Devo começar essa resenha confessando que eu nunca li “A Revolução dos Bichos” na edição normal, ou seja, a história completa criada por George Orwell. Porém, já vi várias pessoas comentando a respeito de seus livros, das críticas que ele faz em suas histórias e de quão importantes elas são. Dito isso, devo dizer que já tinha curiosidade de ler todas as suas obras, inclusive essa em específico, mas acabei enrolando e nunca lendo de fato. Até que a Companhia das Letras, pelo selo Quadrinhos na Cia., resolveu publicar uma edição maravilhosa em quadrinhos adaptada e ilustrada por um artista nacional, o Odyr. Eu fiquei completamente apaixonada por seu trabalho e logo decidi que deveria conhecer essa obra sob sua perspectiva, e foi o que fiz.
É claro que uma edição adaptada nunca é igual a sua original, porém, mesmo sem ter lido essa, acredito que Odyr fez um ótimo trabalho com a adaptação, já que li resenhas de outras pessoas da obra completa e acho que ele conseguiu passar toda a essência de lá para cá, tanto através do texto quanto das ilustrações, só a apresentando de uma forma mais direta e visual, o que eu particularmente adoro. E no futuro também vou ler a edição completa em prosa, mas já fiquei feliz de ter conhecido essa história.
Um dos pontos mais importantes que podemos perceber nessa leitura é a crítica a regimes totalitários que Orwell fez. E fazendo uma análise maior, podemos perceber que não se restringe apenas a governos, mas também qualquer grupo de pessoas que possui um líder cujo objetivo não é a liberdade ou o melhor para todos, mas, sim, algo específico que restringe muitos com a intenção de chegar a um resultado que supostamente seria o melhor para todos, mas que na realidade só é bom para uma minoria.
"Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros"
De qualquer forma, aqui em sua obra ele estava fazendo uma sátira especificamente contra a URSS ou, na verdade, contra os discursos e ações de Stálin no período da mesma. Inclusive seus personagens foram baseados diretamente nele e em outros líderes daquele momento. Para Orwell, o discurso socialista dele acabou criando suas próprias direções, mais voltada para a tirania do que para o bem do coletivo. E, através de mentiras, opressões, informações manipuladas e abuso de poder, ele acabava controlando a população, fazendo com que o que parecia ser algo melhor, na verdade voltasse quase ao que era antes, mas de forma ainda pior e mais opressiva.
“O que este livro nos diz é que aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”. Essa frase, de Christopher Hitchens, que, inclusive pode ser encontrada na própria orelha dessa edição, é um ótimo resumo sobre o que Orwell nos passou com sua história.
Acho que também podemos dizer que existe uma crítica ao poder, a sociedade, e também ao comportamento do ser humano que, de acordo com o que é mais vantajoso para si mesmo, acaba usufruindo desse poder e abusando do mesmo. Também dá para notar que com alienação e manipulação o controle acaba encontrando seu caminho, e as pessoas só percebem o que está acontecendo quando já é tarde e eles precisam encontrar alguém para substituir essa pessoa do topo, mas a próxima vai acabar tendo ações semelhantes, ainda que as motivações primárias sejam diferentes. E tudo isso acaba se tornando um ciclo, e assim segue repetidamente.
“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível dizer qual era qual.”


Os Números do Amor - The Kiss Quotient #01 - Helen Hoang

Stella Lane é uma econometrista bem-sucedida, tem muito dinheiro, uma família por perto e é muito bonita. Porém, ela tem grandes dificuldades em interações sociais, o que acaba dificultando na hora de manter um relacionamento. Para ela, a vida é bem prática e direta, e as coisas devem ser planejadas e executadas de maneira lógica, pois assim tudo é mais fácil e chega ao resultado esperado. Tudo parece estar indo bem em sua vida, mas sua mãe tem uma ideia fixa de que ela deve constituir sua própria família e já está ficando tarde, então a pressiona para sair com alguém ou começar a se relacionar com um homem da empresa dela que eles acham que seria ideal. Ela tem muita dificuldade de levar esse plano adiante, já que questões amorosas são difíceis para ela, principalmente porque tem Asperger, um transtorno do espectro autista caracterizado por dificuldades nas relações sociais.
Depois de uma conversa indelicada com um colega de trabalho bem desprezível, Stella acaba chegando à conclusão de que deveria praticar sexo para, assim, talvez conseguir fazer um relacionamento amoroso durar um pouco mais. Como ela tem ideias práticas, decide encontrar a forma mais adequada para treinar: contratar um profissional na área. Afinal, ela tem dinheiro de sobra e a pessoa teria sido comprovada pela agência e ela não correria o risco de pegar alguma doença.
E foi assim que ela conheceu Michael Phan, um acompanhante profissional que entrou nessa área por pura necessidade financeira. Porém, as contas continuam a chegar e, por mais que ele tenha clientes, continua bem difícil manter tudo em ordem. Ele é uma pessoa de grande coração, que vem de uma família enorme e amorosa, tem um relacionamento muito bom com os membros e está sempre querendo ajudar o próximo, mesmo que isso faça com que ele deixe seus sonhos e objetivos de lado.
Por conta de uma cliente do passado, Michael não repete mais nenhuma delas, mas Stella acaba intrigando-o de uma forma positiva e ainda traz à tona aquele sentimento dele de cuidar dos outros. E é por isso que acaba aceitando sua proposta nada convencional de ajudá-la a dominar a arte do relacionamento. Com o passar do tempo juntos, Michael fica cada vez mais encantado pela personalidade e pela mente brilhante de Stella, enquanto ela se vê envolvida pelo jeito carismático dele e também a forma como a faz se sentir confortável, impelindo-a a sair de sua zona de conforto. Porém, eles são muito diferentes e no papel provavelmente não teriam um futuro. Mas quem disse que o amor segue a lógica?
Desde o momento que vi a capa desse livro, sabia que precisava lê-lo, afinal amo romances contemporâneos, a capa é linda, e a frase “Nem a mais exata das ciências é capaz de prever por quem vamos nos apaixonar” me conquistou completamente, afinal amor é isso mesmo, a gente simplesmente sente. Quando li a sinopse, fiquei ainda mais interessada na leitura já que a protagonista tem síndrome de Asperger, assim como a própria autora, e sempre gosto de conhecer o ser humano mais a fundo, e, como não há muitos livros de romance abordando o assunto (pelo menos que eu tenha conhecimento), sempre fico muito feliz quando encontro um.
Gostei bastante de conhecer a Stella, com seu jeitinho lógico, mas também com um lado emocional bem trabalhado. Ela acabou sendo um pouco diferente do que eu imaginei a princípio, porque já li outro título com um personagem com Asperger e assisti séries e filmes (não que eu queira generalizar o comportamento ou encontrar um padrão) e a achei mais emotiva e afetiva do que os outros. Mas isso é algo bom, porque assim conseguimos ter mais uma confirmação de que cada ser humano é único e igualmente especial e não devemos ficar comparando ninguém. Outra coisa interessante a respeito dela é que a autora também tem Asperger, como comentei no início dessa resenha, e se inspirou em si própria para construir a protagonista, então Stella ganhou ainda mais verossimilhança com a realidade.
E Stella não queria viver com um rótulo de ser alguém com um transtorno dentro do aspecto do autismo, então acabava tentando esconder comportamentos e disfarçar situações. O que eu achei curioso é que essa é uma característica de muitas mulheres diagnosticadas com Asperger, e eu não tinha conhecimento deste fato. Mas a autora nos presenteou com uma Nota explicando um pouco sobre o assunto, e também sobre como ela entrou numa jornada de autodescobrimento que a levou a obter seu diagnóstico com trinta e quatro anos, além de indicar fontes para fazermos pesquisas mais profundas.
A narrativa da autora é deliciosa! Leve, envolvente e muito fluida, nós logo mergulhamos na trama e ficamos envolvidos pelos acontecimentos, pelos encontros, como um estava começando a se envolver com o outro, demonstrar quem era, o que queria, o que fazia, suas famílias, etc. A trama é divertida e também traz um pouco de drama.
Além do mais, Hoang trabalhou muito bem a construção dos personagens, tanto os principais quanto os secundários (já quero livros protagonizados por vários deles!), e nos fez entender cada um mais a fundo. Stella e Michael foram muito bem apresentados, com suas qualidades e defeitos, alegrias e tristezas, dificuldades, sonhos e objetivos de vida. E também amei o desenvolvimento do relacionamento dos dois, que aconteceu aos poucos e de uma forma que nos faz suspirar.


A Máquina do Tempo - H.G.Wells

Eu ainda não sei que mágica que H.G.Wells faz, mas todos os seus livros me despertam um encanto, mesmo que não sejam tão bons do ponto de vista técnico, ele consegue através de sua escrita me levar a cantos variados, como foi no caso da leitura de seu primeiro livro publicado, A Máquina do Tempo, publicado pela Suma de Letras.

Um cientista faz sua primeira viagem no tempo, e narra a seus amigos como foi ir parar no ano de 802701. A Terra é habitada por humanos diferentes, menores e dóceis, mas ao mesmo tempo sem tecnologia ou conhecimento. Eles entretanto não estão sozinhos, nos subterrâneos outra evolução dos humanos se emprenha no escuro, e desperta o medo não só destes humanos da superfície como do viajante do tempo.

Para compreender o livro em questão é preciso ter a mente muito aberta, tendo como pano de fundo alguns dados históricos. Este é o primeiro livro publicado pelo autor, mesmo assim ele já demonstra o que mais tarde veremos em Guerra dos Mundos, uma capacidade ímpar de narrar estórias variadas e nos despertar curiosidade para seus desfechos. Segundo, ele foi pioneiro dentro da ficção científica, tanto como um dos pais do gênero, como também a abrir para a temática de viagem no tempo através de um aparato físico, tema este que passou a ser muito popular na ficção científica.

A estória é narrada por um narrador em primeira pessoa que se encontra na casa do cientista, ele primeiro nos conta de uma reunião onde o cientista apresenta sua ideia da máquina, e depois mais tarde também quando está na casa quando ele volta de sua viagem no tempo. Quando o viajante narra sua experiência, a narrativa se mantêm em primeira pessoa, mas através agora do cientista.

O livro não se propõe a contar uma estória tradicional onde se tem um começo, meio e fim, com um conflito. Ele visa antes de mais nada uma reflexão e crítica a sociedade do momento do autor. Isso fica muito claro quando ele faz críticas ao comunismo, e ao modo operantis da sociedade dos elois (os seres humanos que vivem na superfície), esta civilização é igualitária, todos se vestem igual, são iguais. Naquela época o comunismo já era uma ameaça a Inglaterra, e assim um vilão ao estilo de vida tradicional inglês.

O futuro poderia ser considerado uma distopia já que não deu certo, embora os humanos ainda existam tudo que conquistou se perdeu. Não existe uma língua, tecnologia, e mesmo os animais deixaram de existir. A partir destas observações o cientista começa a especular o que o ser humano fez que culminou neste resultado. Ele chega a pensar sobre os ricos que se mantiveram na superfície enquanto os pobres se mantiveram escondidos trabalhando para manter a vida destes burgueses ingleses, e esse comportamento acabou gerando estas duas raças.

Ao mesmo tempo ele também começa a desenvolver a semente do que mais tarde também seria largamente explorada, a quarta dimensão, que é a dimensão do tempo. Trabalhando algumas possibilidades dentro desta teoria. Inclusive chego a me questionar se de fato nosso protagonista viajou na linha do tempo, já que diversas existências coexistem ao mesmo tempo, ou seja, diversas possibilidades de existência, e talvez a viagem tenha sido para outro modo de evolução da raça humana. Ou ainda quem sabe ele tenha ido para outro planeta?



Paris Em Casa - Clotilde Dusoulier

Uma das minhas editoras preferidas é a Companhia das Letras, que possui um vasto catálogo com títulos voltados para os mais variados leitores. Com obras de diversas áreas, a editora possui vários selos para atingir seus públicos mais específicos de forma direta. E um dos selos que mais gosto é justamente o Companhia de Mesa, que traz obras gastronômicas simplesmente maravilhosas, com edições impecáveis e conteúdo incrível para qualquer apaixonado por culinária se deliciar a vontade.
O livro da vez é “Paris Em Casa”, de Clotilde Dusoulier, que até o momento é um dos meus preferidos porque eu me identifico com as receitas que encontrei no exemplar e já preciso experimentar a maioria delas para ontem!
Uma das primeiras coisas que nos deparamos quando abrimos esse exemplar é um pequeno índice, como esperado nesse tipo de livro, mas o diferencial é que foi dividido por refeições de todos os horários: Manhã, Meio-Dia, Tarde, Fim de Tarde, Noite e Madrugada, com o título em português e também francês. Não é necessariamente algo que pensamos aqui no Brasil (tantas divisões num dia) – pelo menos eu não sou assim, e talvez por isso mesmo eu tenha achado tão legal.
Ao virar a página, antes das receitas, há uma introdução bem bacana, com o título charmoso “Bem-Vindo a Paris” e eu fiquei com aquela vontade de ouvir isso de verdade. A autora, que mora na cidade sua vida inteira, fala com saudosismo acompanhado de um outro sentimento gostoso sobre as comidas e/ou locais que mais gosta. E também conta que esse livro reúne suas receitas favoritas e as histórias que lhe deram vida, e eu só fiquei empolgadíssima para continuar com a leitura.
Depois disso, temos a oportunidade de conhecer “Uma Breve História da Culinária Parisiense”, onde ela fala um pouco sobre o assunto, nos informando como os parisienses eram autossuficientes, e também como eles começaram a abrir espaço para importação de alimentos, que se estendeu para todas as classes, não apenas entre os mais ricos como acontece em outros locais. Outra curiosidade bem bacana é que o primeiro restaurante como conhecemos nasceu justamente em Paris, quando houve uma “mudança histórica da refeição do âmbito privado para o público”. Eu realmente não conhecia essas informações e achei tudo isso muitíssimo interessante.


No início de cada um desses capítulos há duas páginas separando-os do anterior, uma com uma fotografia e outra com um pequeno texto. Em seguida temos a chance de acompanhar as receitas, que também vêm com curto parágrafo onde a autora fala um pouco sobre aquele prato, faz algum comentário curioso, dá algumas dicas ou informações.
Ainda dentro do capítulo há mais alguns textos, que vêm acompanhados também de uma fotografia de algo, alguém ou algum lugar, onde Clotilde fala sobre o assunto retratado ali, sobre pessoas ou hábitos parisienses, e também dá dicas de locais para visitarmos. Ou seja, esse é mais do que um livro de receitas, te faz adentrar um pouco na cena gastronômica de Paris, com fatos e curiosidades históricas, nos situando e fazendo-nos entender um pouco mais sobre o assunto e aumentando ainda mais a vontade de visitar a Cidade Luz. E eu realmente amei essas páginas tanto quanto as receitas em si.
A diagramação da obra está espetacular. Com fotos maravilhosas das receitas e também de cenários e pessoas, temos a oportunidade de viajar para Paris sem sair do lugar. Particularmente, aprecio bastante a culinária francesa, então as fotos me deixavam com água na boca e ansiosa para experimentar cada prato. O texto está confortável para a leitura devido ao tamanho da fonte e aos espaçamentos. E as receitas vêm em páginas que lembram um Menu de restaurante por conta de um detalhe gráfico na parte superior.


Eu me Chamo Antônio - Pedro Gabriel


Eu me Chamo Antônio do autor Pedro Gabriel pela editora Intrínseca é o tipo de livro que eu não compraria, sabe-se lá, e acho que já disse, eu não sou dada a poesia e coisas do gênero, não é que exatamente eu não goste, mas meu humor negro é pouco peculiar para apreciar tal arte. Mas a vida dá voltas e esse livro caiu em minhas mãos, e eu não me fiz de rogada, tentei lê-lo e engoli rs!

O projeto do livro nasceu em cima dos milhares de guardanapos produzidos pelo autor em suas muitas noites de bar. Escritos em letras em sua maioria bem peculiares trazem frases curtas com ótimas sacadas da vida. Adorei boa parte das frases a ponto de querer tirar fotos do livro e sair distribuindo, só não o fiz pelo maior problema do livro: a legibilidade das letras. O autor é consciente deste problema, tanto que existe um sumário no fim do livro com todas as frases, e confesso que sem ele muitas delas passariam reto, oh letrinha ruim de entender rs!

Problemas a parte o livro tem uma arte agradável e interativa com cada frase. O tamanho do livro é menor, quase um quadrado gordinho. Com suas páginas grossas passa entre as mãos sem que nos damos conta dele em suas dez partes. Essas partes narram a experiência de Antônio ao se apaixonar e sofrer. A leitura é muito, mais muito rápida.

É um ótimo livro para presentear, tem frases para todos os tipos de pessoa e situação. E o autor já lançou outros livros, o Segundo Eu Me Chamo Antônio e o Ilustra Poesia. No perfil do Instagram do autor ele posta seus guardanapos.







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O Duque Mais Perigoso de Londres - Decadent Dukes Society #01 - Madeline Hunter

Clara Cheswick é uma mulher de personalidade forte que sabe o que quer e vai atrás disso, independentemente de qualquer coisa. Com a morte de seu pai, por quem nutria um grande carinho, já que ele sempre lhe ensinou tudo e deixou-a ser quem ela gostaria, Clara poderia ter ficado dependente de seu irmão, que herdou o título de Conde de Marwood, mas felizmente seu pai lhe deixou com sua própria fortuna e até mesmo uma residência, fazendo com que ela tenha a oportunidade de seguir em frente com sua vida sem precisar seguir ordens ou pedir permissões.
Com isso, ela mantém um jornal sério e com ótimas matérias, escrito apenas por mulheres, cultiva um grupo de amigas e pensa em um dia fazer um Clube feminino, adora roupas e moda de maneira geral, apesar de não poder se vestir do jeito que gostaria no momento, afinal está de luto, e tem uma única certeza: não quer se casar.
Do outro lado, conhecemos Adam Penrose, o Duque de Stratton, que teve a reputação de sua família manchada depois que o pai protagonizou um escândalo que resultou em sua morte. Depois disso ele e sua mãe, de origem francesa, se mudaram para Paris, onde viveram por alguns anos, e ele marcou e venceu diversos duelos, o que lhe rendeu a reputação de perigoso.
Com seu retorno à Londres e a Sociedade dos Duques Decadentes, que formou junto com seus dois amigos, Adam acaba recebendo uma proposta de acabar com a briga entre as famílias, que já dura décadas, da Condessa viúva de Marwood, ninguém menos do que a avó aterrorizante de Clara. Ela propõe uma união por casamento com sua neta mais jovem e adorável, mas é pela difícil Clara que Adam realmente se interessa. Mas será necessário mais do que um simples interesse para fazê-los superar uma briga familiar, as animosidades do passado e um segredo que pode afetá-los ainda mais.
Quando a Editora Charme anunciou que publicaria essa mais nova série de Madeline Hunter, fiquei muito empolgada pela leitura por dois motivos. O primeiro é que eu já conhecia a escrita da autora e gostei da experiência e queria repeti-la. E o segundo é que este é um título de Romance de Época, meu gênero favorito. Então é claro que eu contei os dias para ter meu exemplar em mãos para poder me aventurar nessas páginas e me apaixonar pelos personagens. E adorei o resultado!
O romance desse livro é mais maduro, os personagens sabem o que querem e fazem o que têm vontade, sem pensar realmente nas consequências de seus atos. Ou, na verdade, pensando nisso, mas nem ligando para o que pode resultar, apenas encontrando a melhor maneira de lidar com a situação. E vemos bastante isso em ambos os protagonistas, mas com uma pitada um pouco maior em Clara que, por ser uma mulher, tinha mais restrições e “regras” a serem seguidas, assim como uma maior possibilidade de perder sua reputação e ser alvo das maiores fofocas. Afinal, Adam além de homem é um Duque, rico e perigoso. Então, obviamente ninguém encrencaria com ele de qualquer maneira e ele já poderia fazer o que bem entendesse por conta de sua posição e fama.
Gostei bastante dessa característica deles, primeiro porque é um suspiro de alívio poder ler algo sem aqueles dramas desnecessários ou personagens que agem de forma muito imatura ou não param para conversar sobre coisas importantes. Fora que são muito independentes, cada um sabe de sua própria vida e toma suas decisões baseadas em si mesmos. Adam sabe que Clara mantém um segredo, mas não a pressiona a contar sobre isso. E ela não o faz até se sentir preparada. Enquanto ele faz uma investigação a respeito de algo que o pai dela possa ter feito que prejudicou o seu pai, mas não a trata de forma diferente por causa disso.


A Torre do Amor - Contos de Fadas #04 - Eloisa James

Gosto bastante de livros de época e tenho lido cada vez mais títulos desse gênero. Quando li a sinopse de “A Torre do Amor”, fiquei encantada com o que parecia ser a história e decidi que precisava ler o quanto antes esse volume. Agora, venho compartilhar com vocês todas as minhas opiniões a respeito dessa obra escrita por Eloisa James e publicada aqui no Brasil pela Editora Arqueiro.
Nesse volume conhecemos a história de Gowan, o duque de Kinross, que decide participar da temporada social de Londres para escolher uma noiva, sendo o seu plano escolher uma jovem adequada e negociar o noivado com o pai dela. E foi nesse baile que ele acabou conhecendo a esposa perfeita, Lady Edith, uma mulher serena, doce, sorridente e muito bonita, que logo que ele viu, sabia que era exatamente tudo o que procurava em uma mulher, sendo bem diferente de todas as moças que conheceu naquele dia. Sendo assim, ele logo foi procurar o pai dela e combinar tudo para o excelente casamento que planejava.
O que nossa protagonista, Edith, nunca poderia imaginar é que após ir em um baile doente de tanta febre, estaria prometida para casamento. E logo de um homem que ela mal dançou duas danças e que, pela febre alta, não conseguia nem olhar na cara dele. Ela nem o reconheceria na rua se o encontrasse.  
Então nossa protagonista resolve mandar uma carta para Gowan, e, quando eles se encontram na festa de casamento de Honoria Smythe-Smith (para quem não a conhece ou não se lembra, essa é a protagonista de “Simplesmente o Paraíso”, primeiro volume da série Quarteto Smythe-Smith, da autora Julia Quinn, que também foi publicado pela Arqueiro), Gowan repara que sua futura esposa não era bem como imaginava, mas a atração era tão grande que isso não diminuiu o seu encanto por ela.
Quando Eddie viu o seu noivo, um homem gigante e ruivo, ficou encantada, já que, além de lindo, era amoroso também. Ambos ficaram ansiosos pelo casamento, tamanha era a atração, e os beijos também eram muito bons. E, quando o dia finalmente chegou, as coisas não foram bem como imaginavam.
Eddie é um homem muito ocupado, e quase não sobra tempo para ficar com a sua esposa. Toda hora funcionários entram no quarto dos dois e isso a incomoda muito. E, como ambos eram virgens quando se casaram, a noite de núpcias não foi das melhores, já que o início para a nossa protagonista foi muito difícil, mas ela resolveu não contar nada, escondendo então do seu marido os seus verdadeiros sentimentos.
Quando o duque descobriu que Edith escondeu algumas coisas dele, acabou se mostrando um cara diferente, já que perde um pouco do controle sobre si quando está com raiva. E isso acabou magoando-a profundamente, fazendo com que, após a discussão deles, nossa protagonista vá para a torre do castelo, trancando Gowan do lado de fora.
Narrado em terceira pessoa, o que gostei bastante já que assim conseguimos entender melhor tudo que estava ocorrendo com os nossos dois protagonistas e entender a história mais amplamente, esse volume consegue nos conquistar, tanto com a narrativa rápida e fluida, mas também com o pano de fundo e com os personagens.
Gostei bastante de como ambos os personagens se desenvolveram nesse volume. Foi ótimo poder acompanhar o crescimento dos dois, e fiquei torcendo em diversos momentos para que eles conseguissem se acertar logo. Achei bem interessante que no final da leitura temos uma cena extra que nos mostra como tudo ficou anos depois do final do livro. Adoro ler coisas assim e isso com certeza foi um ponto alto na história.


Uma Dobra no Tempo - Uma Dobra no Tempo #01 - Madeleine L'Engle

Uma Dobra no tempo da autora Madeleine L'Engle, publicado pela Harper Collins Brasil, estava na minha lista para compras/leitura desde que era da Rocco, e quando me decidi por ler nem ao menos sabia da importância e polêmica que este livro teve ao longo de sua estória.

Meg Murry é uma criança considerada problema, com uma fúria interna que não consegue dar vazão, a única coisa que ela quer é saber onde seu pai está e quando ele volta. Seu irmão Charles Wallace tem apenas cinco anos, mas é mais seguro e sábio que a menina. De forma repentina e inesperada ele a leva para uma aventura em busca do pai, com suas amigas estranhas eles partem para fora da Terra, e Meg terá que experenciar sentimentos e sensações que ela não sabia ao certo que tinha dentro de si!

L'Engle publicou seu livro em 1962 depois de muitas críticas e nãos de editores e editoras. Isso porque sua estória foge ao padrão da fantasia, assim como ao esperado da ficção científica. Não é tão acessível as crianças, e não chega a ser para adultos. Verdade seja dita o que esta senhora fez com certeza está um pouco além do que todos estas pessoas esperavam e sabiam. Cansada das leituras de sempre ela começou a ler livros de físicos, e estas leituras refletiram no conteúdo e criação de mundo de seu livro.

Sua narrativa em terceira pessoa é de forma geral fluída e descritiva na medida, ao mesmo tempo em que nos apresenta através dos diálogos conceitos físicos como a dobra no tempo que podem travar a compreensão de quem nunca leu sobre o assunto. Para compreender e aceitar algumas das coisas que ela se utiliza é necessário sair da mentalidade 3D e expandir horizontes. Ao mesmo tempo que ela utiliza de conceitos de pluralidade de mundos e vidas nestes, ela também se utiliza de conceitos espiritualistas como a unidade de todas as coisas e o amor.

A estória é grandiosa já que atravessa galáxias, ao mesmo tempo é muito próxima quando trabalha com um planeta onde tudo é previsível e controlado, logo as pessoas de lá vivem suas vidas sem alegria e em um mesmo ritmo, sem emoção ou sentimento. Como a autora ressalta iguais e idênticos não são a mesma coisa. Podemos transportar esta ideia para o comunismo soviético, que estava ativo com as ameaças de bombas nucleares na época que a autora escreveu o livro.

Quanto aos personagens todo meu amor vai para o jovem Charles Wallace que pode ter só cinco anos, mas é um menino super dotado, eu diria que vai até além disso como se ele fosse outra espécie de humano. É muito protetor e gentil com a irmã, alias é o único que a entende só de a olhar. É muito vivaz e tranquilo, as vezes até um pouco prepotente. Mas soa como aquela criança interessante de se ter por perto.

Já sua irmã a protagonista, Meg, é bem chata. Tudo bem ela está muito tempo sem o pai, sem saber o que aconteceu a ele, e todos em sua cidade inventaram coisas a esse respeito. Junte a isso o fato de ela achar a escola um tédio porque tem seus próprios modos de aprender as coisas. Mas ela passa boa parte do livro gritando e zangada com o mundo. Junto a isso é muito medrosa e solitária. E sempre acha que são os outros que resolveram o problema, se acha incapaz de fazer qualquer coisa, não tem auto-estima!

Calvin o novo amigo dos irmãos acaba na aventura por acaso e estabelece um bom link entre os irmãos já que é uma dose de realidade. Embora seja diferente no que diz o padrão de um adolescente ele consegue disfarçar bem, e é sociável. Essa capacidade é que ajuda os irmãos a contrabalancear seus mundos estranhos junto aos outros.


Desvendando Princesas - Vanessa Marques

A primeira coisa que chamou bastante minha atenção nesse título foi a capa maravilhosa, que só de olhar já despertou meu desejo. Assim que li a sinopse, fiquei encantada com o enredo que esse volume prometia trazer e logo o coloquei na minha lista de desejos. Agora, depois de ler essa obra deliciosa da brasileira Vanessa Marques, venho compartilhar com vocês as minhas opiniões.
Nesse título conhecemos a história de Isabela, uma jovem que saiu da sua cidade natal com apenas dezessete anos e jurou nunca mais voltar. Certo dia, porém, ela recebe um telefonema, no qual descobre que a sua irmã Luciana Haddad, que iria se casar com o príncipe Nicolas, foi sequestrada e ninguém tem ideia de quem foi o responsável ou do seu paradeiro, fazendo com que Isabela volte a sua cidade natal para ajudar na busca de sua irmã.
A trama se passa em São Vicente, um país que possui regime de monarquia no tempo atual. E, quando Isabela chega lá, precisa ajudar a guarda real a desvendar os mistérios, e com isso encarar seu passado, já que ela vai ter que trabalhar com Lucca, o atual major da Guarda e seu ex-namorado, quem ela abandonou no passado sem dar nenhuma explicação. Seu grande amor, o qual ela teve que abrir mão em nome de um bem maior.
Lucca é um homem forte e destemido, que mesmo tendo uma grande ferida causada pelo abandono de sua ex-namorada dez anos atrás, seguiu com a sua vida e seus planos. Estava tudo indo bem, até que ele se vê obrigado a trabalhar com a sua ex e ter toda aquela confusão de sentimentos voltando à tona.
Isabela é uma mulher forte e determinada que faria qualquer coisa pela sua irmã. Dona de um coração incrível, ela se coloca em segundo plano diversas vezes, pensando primeiro nos outros. Quando se vê obrigada a encarar o seu passado, sua vida muda completamente.
Com uma escrita cativante, esse volume conseguiu me conquistar em todos os momentos misturando romance, suspense e personagens maravilhosos e complexos. Tudo isso com uma narrativa leve, rápida e fluida, que faz com que a gente não consiga parar de ler até chegar ao final.


O Assassinato do Comendador Vol.1 - Haruki Murakami

Foi por pouco (um pouco mais de um mês) que meu último livro lido não foi do mesmo autor do primeiro livro lido no ano. Haruki Murakami ganhou minha atenção em janeiro, e agora mais uma vez provou em O Assassinato do Comendador Vol.1, publicado pela Alfaguara, ser um autor com uma narrativa fantástica única.
Um pintor retratista abandona Tókio após ser dispensado pela esposa, sem rumo ele anda com seu carro pelo Japão sem saber o que fazer até que se estabelece entre as montanhas em uma casa que era do pintor Tomohiko Amada. Dia após dia ele busca uma nova maneira de ser e pintar até que ele encontra um quadro de Amada perdido ao mesmo tempo em que um vizinho faz um pedido inusitado a ele. Uma jornada entre a realidade e o que parece um sonho começa, e este jovem pintor nunca mais será o mesmo!
Murakami tem um talento incrível de transformar aparente estórias sem potencial em boas narrativas. O livro começa com o protagonista narrando em primeira pessoa sua separação e os rumos que ela gerou, até este momento você não compreende a relevância e em que ponto o autor quer chegar, já que seu ritmo é lento e detalhado. Mas a medida que a estória se estabelece e começa a brincar com os sentidos compreendemos a importância de cada detalhe que o autor se demorou em narrar.
Pautada no realismo fantástico a cada cena nos perguntamos se o pintor está aos poucos perdendo a noção da realidade com o isolamento ou se os eventos sobrenaturais começam a de fato acontecer com ele. Estes eventos são tão pontuais e sutis que não geram em momento algum a dúvida no leitor. Minha única questão com o livro foi o autor pesar um pouco no excesso de páginas para contar sua estória, isso porque a Alfaguara ainda dividiu o livro em duas partes, ele na verdade passa das 600 páginas! Por conta desta divisão temos um fim repentino e sem sentido.
O protagonista, o pintor, tem como obsessão a irmã que morreu muito jovem do coração. Todas as suas escolhas sejam conscientes ou inconscientes são de coisas ou pessoas que lembram ela seja pela aparência ou pelo comportamento dos mesmos. Essa fixação acaba por prejudicar ele já que estabelece relações com esse pano de fundo, não vê as pessoas como são de fato.
Sua jornada pessoal é bem detalhada, ele quer deixar de ser retratista e passar a fazer quadros para si mesmo. Talvez no fim deste caminho ele veja que fazer retratos não seja algo que ele fez só por dinheiro, pelo menos este é o rumo que o livro deixou até o seu final. Suas relações amorosas também são bem detalhadas, desde a escolha de sua esposa até de suas amantes.
Seu vizinho, Wataru Menshiki, é um personagem enigmático, a impressão é que todo tempo ele escolhe partes da verdade para contar, e nunca toda a verdade. Não sei até agora se ele só tem boas intenções, mas ele é um homem culto e muito rico que passa a ser amigo do pintor, e até a compartilhar algumas coisas estranhas.
Alguns personagens surgem ao longo da trama, mas tirando o vizinho nenhum deles é constante. Temos o amigo filho do pintor Amada, as amantes, a ex-esposa, e até a irmã morta. Todas descritas e apresentadas com densidade, possibilitando riqueza na imaginação da estória.


O Último Golpe do Amor - Cris Barbosa

Janaína Albuquerque é uma jovem de ótima personalidade, que acaba tomando decisões ruins por conta de sua mãe. Isso acontece porque ela tem uma carência desde novinha por conta dos pais negligentes, o pai porque tinha outra família e nunca fez nada por ela – a não ser deixar dinheiro de herança quando morreu – e a mãe, que é uma interesseira que sempre quer buscar o melhor e mais caro para si. Então, para agradar e ser mais aceita pela mãe, Jana acaba ouvindo-a e tomando atitudes que não são boas e não lhe fazem bem.
Por conta disso, ela termina seu relacionamento com Matheus Vasconcelos e vai para o Rio de Janeiro começar uma nova vida com outro homem. Porém, nem tudo sai como o esperado e ela acaba passando por um grande golpe, fazendo com que tenha que voltar para sua cidade do interior e voltar a viver na casa de sua avó.
Numa cidade pequena e sem muitas oportunidades, Jana se vê com muita dificuldade de arranjar emprego ou um futuro. E é justamente seu ex, Matheus, que vai ser o único com capacidade e “disposição” a ajudá-la. Com muito esforço e dedicação, ele fez o bar da família crescer e ganhar sucesso, sendo um dos mais frequentados do local. E é lá que Jana vai começar a trabalhar.
Depois de ter sido abandonado pelo amor de sua vida, Matheus fechou completamente o seu coração e não consegue se envolver emocionalmente com nenhuma mulher, então tem muita dificuldade em aceitar a presença de Jana em sua vida novamente. Mas ela está disposta a fazer o que for necessário para mostrar que se arrepende e nada nem ninguém vai poder ficar entre os dois de novo. Resta saber se o amor que ele sentia ainda existe em seu peito e se esse sentimento é suficiente para fazer com que consiga perdoar Janaína, passar por cima das mágoas e ressentimentos que guarda dentro do seu coração e voltar a viver esse amor.
Algo que sempre gosto de fazer é prestigiar obras de autores nacionais para descobrir novos talentos do Brasil. O livro escolhido da vez foi “O Último Golpe do Amor”, de Cris Barbosa, publicado pela Editora Pandorga, que eu ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer. Como adoro romances, fiquei muito empolgada por essa leitura, principalmente depois de ter lido tantas críticas positivas por aí. E agora o que eu posso começar afirmando é que adorei essa primeira experiência com ela e mal vejo a hora de ler outras de suas obras (até o momento vi que ela tem mais um livro, “Uma Incontrolável Atração”, também publicado pela Pandorga. E já espero outros)!
A escrita da autora é muito gostosa. Daquele tipo que te prende nas páginas e faz com que você não tenha vontade de fazer outra coisa até acabar a leitura. E, se mesmo assim precisar parar (porque tem trabalho, aulas, etc.), fica pensando no livro e querendo voltar para ele. Além disso, a narrativa flui muito bem, fazendo com que a gente avance rapidamente na leitura e, quando percebemos, já chegamos ao final.
A trama faz com que a gente sinta um misto de sentimentos o tempo inteiro. Ora estamos felizes, ora indignados. Em algumas situações nosso coração está repleto de um calorzinho bom, em outras ficamos com raiva. E também há momentos em que a tristeza fala mais alto e depois é o amor quem vira protagonista. Uma das partes mais tocantes para mim foi poder conhecer a avó da Jana, já que eu perdi a minha no começo de 2018 e ela era uma das pessoas mais importantes da minha vida, então sinto muito a sua falta, ainda que sua personalidade não tenha sido parecida com a da vó Chica.
Gostei muito da Jana na maior parte do tempo, exceto por alguns detalhes e achei maravilhoso poder acompanhar a sua evolução e amadurecimento em toda a trama. Foi bonito e inspirador de se ver. Também curti muito a avó Chica, o Gil, amigo da protagonista. Porém, não posso dizer que senti o mesmo por Matheus. Acredito que ele tenha sido um babaca em alguns momentos e me irritei com muitas de suas atitudes.
Não sou uma nada fã de homens como ele, então por um gosto pessoal meu não consegui torcer tanto assim pelo casal, apesar de ter gostado muito de que o relacionamento entre eles não foi fácil, já que havia mágoa e ressentimentos, então soou real que tivesse que ser reconstruído aos pouquinhos. Teria sido simplesmente maravilhoso se não fossem essas atitudes do Matheus que mencionei acima.
A história foi narrada em primeira pessoa e temos a oportunidade de acompanhar as perspectivas de ambos os protagonistas. E dentro de cada capítulo o texto é separado ora pelo ponto de vista de Jana, ora pelo de Mah, com o nome do narrador principal em destaque. Gosto bastante deste tipo de narrativa, pois assim podemos conhecer mais a fundo cada um dos personagens, seus pensamentos, sentimentos e como agem, e também a trama de forma mais ampla, já que temos a chance de ver os dois lados de uma mesma situação.
“O Último Golpe do Amor” é um romance delicioso, leve e envolvente, que vai te conquistar com essa protagonista que vai em busca de redenção no amor, da reconquista e da confiança de seu amado por conta de um erro que cometeu no passado. Você vai sentir as mais diversas emoções e um quentinho no coração quando perceber que no final o amor sempre vence.
Avaliação





Black Hammer #01: Origens Secretas - Jeff Lemire, Dean Ormston & Dave Stewart

Quando um grupo de Super-Heróis salvou a metrópole Spiral City, não imaginava que iriam ficar presos numa fazenda em uma remota cidade-prisão suspensa no tempo. Mas foi isso o que aconteceu com a Menina de Ouro, Barbalien, Abraham Slam, Coronel Weird e Madame Libélula, que não sabem como ou porquê foram parar ali, nem como fazem para finalmente terem sua liberdade de volta.
Através de flashbacks sobre seus passados, as origens de seus poderes e suas histórias antes do acontecimento que fez com que ficassem presos ali por dez anos, vamos conhecer melhor cada um dos protagonistas enquanto eles tentam sobreviver na vida pacata que levam e tentam descobrir uma forma de escapar da realidade em que vivem – ou apenas se adaptam a ela.
Confesso que estava esperando um pouco mais dessa leitura, que tem um teor mais introdutório, apenas nos apresentando aos personagens de maneira não muito aprofundada, ainda que nos faça entender o que é necessário para seguirmos em frente com a história. Mas, de um modo geral gostei bastante do resultado final.
Algo que curti muito foi que o autor resolveu focar nos personagens e não nos acontecimentos em si, fazendo com que o leitor tenha a possibilidade de criar um vínculo maior com cada um e entender mais a fundo a maneira de ser deles individualmente e também o que enfrentam com sua realidade, como gostariam que as coisas fossem diferentes, como agem diante do cenário permanente em que vivem, suas reações, angústias, etc. Tudo isso faz com que a gente entenda-os para depois começarmos a ver como as coisas vão finalmente se modificar nas continuações, as quais estão ansiosa para conferir.
Sobre os acontecimentos, assim como com os protagonistas, não temos muitas informações ainda a respeito de como foram parar ali e como finalmente vão conseguir escapar do local e dessa situação, mas já temos a chance de ver alguma coisa podendo acontecer e estou bem curiosa para saber o que vem por aí.
Como eles estão presos nessa situação e também no local, sem entender como chegaram e se um dia vão conseguir sair, conseguimos sentir a angústia geral deles, assim como isso afeta mais umas pessoas do que outras, que acabaram se adaptando ao meio em que estão vivendo com uma facilidade maior. E, por conta disso, e de suas reflexões e busca por respostas, há um tom mais melancólico na trama.
Alguns personagens com certeza chamaram mais a minha atenção do que outros, porém todos eles me instigaram na mesma proporção. Há um clima sombrio por trás de algumas histórias e também permeando a realidade dessas pessoas que nos deixa aflitos e entusiasmados para saber mais.
As ilustrações ficaram por conta de Dean Ormston, que sofreu uma hemorragia cerebral (derrame) depois de finalizados os primeiros números dessas HQs, e felizmente conseguiu dar a volta por cima, fazendo fisioterapia e se empenhando bravamente em sua recuperação, conseguindo uma melhora significativa, ficando quase totalmente recuperado e podendo, assim, voltar ao projeto. Só por saber disso já senti minha admiração por esse artista crescer ainda mais e fico feliz em saber que ele conseguiu tudo isso.


Vox - Christina Dalcher

Quando eu a li a sinopse desse volume pela primeira vez, me encantei com a premissa da história e logo quis colocá-lo na minha pilha de leituras para conferir essa distopia, que fala sobre empoderamento e luta feminina. Esse é um tema pelo qual me interesso bastante, já que acho que nossa voz deve ser ouvida e gosto muito de histórias que abordam mulheres fortes. Com isso, comecei essa leitura e agora venho compartilhar com vocês as minhas opiniões.
Em Vox, conhecemos uma sociedade totalmente diferente da nossa atual, onde após as eleições de um governante muito extremista e bastante conservador, as mulheres e todos aqueles indivíduos que fogem do padrão dos “puros”, perderam totalmente as suas liberdades. E, com isso, as mulheres foram sentenciadas a viver com uma cota de palavras, na qual somente podem utilizar cem palavras por dia. Para ter esse controle, o governo utilizou um marcador no pulso de cada mulher e quando a mesma passa do limite das cem palavras no dia, é penalizada através de choques. Vemos também que as escolas são divididas entre meninas e meninos, e que as meninas aprendem atividades consideradas de mulheres, como costuras e afazeres domésticos, ao invés de uma educação normal como nos dias atuais.
E é nesse cenário que conhecemos a neurolinguista Dra. Jean McClellan, uma mulher que atualmente vive somente para cuidar do lar. Ela não pode mais ler nenhum livro, os computadores da casa ficam trancados, e até mesmo uma leitura simples como a bula de um remédio está proibida. Ela vive uma vida horrível com o seu marido e seus quatro filhos.
Tentando sempre ensinar tudo que sabe para Sonia, sua única filha mulher, ela tem bastante cuidado para não passar do limite das palavras e ver a sua filha sofrer ainda mais. Seus outros filhos, por serem homens, levam uma vida “normal”, na qual podem trabalhar, ir para a escola, etc. E é o seu filho mais velho que nos deixa mais revoltadas com as suas atitudes. Além de tratar a mãe como uma empregada, ele considera as atitudes do governo corretas, achando que os homens são melhores que as mulheres e que elas foram criadas por Deus apenas para servir aos homens.
Certo dia, um representante do governo bate na porta de Jean, falando que ela foi convidada a trabalhar em um caso para desenvolver um soro para ajudar o irmão do presidente a se recuperar de um dano cerebral que afetou a sua fala. E nossa protagonista, apesar de não querer ajudar o “governo”, sabe que se não o fizer, sua vida vai se tornar ainda pior.
Acompanhamos, então, a vida de Jean McClellan e as suas reflexões. Com uma narrativa em primeira pessoa, conseguimos entender melhor os seus sentimentos, angustias e motivações. E nesse cenário, temos a chance de ver como uma voz pode, sim, fazer a diferença.
O desfecho foi bem corrido e me decepcionou bastante em vários sentidos. Queria uma revolução, mas não da forma que foi feita. Não dá para ficar explicando muito, pois esse é o final do livro e seria um spoiler. Mas o que posso dizer é que esse volume em muitas vezes parece demais com a realidade de algumas/muitas mulheres, nas quais elas têm que se calar e se diminuir por conta de algum homem, que se acha superior e impõe o seu jeito violento. É um livro bem reflexivo, que nos leva a pensar na sociedade de uma forma geral, inclusive a nossa atual.
Nós, mulheres sempre devemos ser unidas. Ninguém solta a mão de ninguém e vamos lutar sempre por um mundo melhor, com mais igualdade. Nossa voz importa e precisamos ser ouvidas. Acho que esse é o ponto alto do livro.
Devo confessar que realmente detesto essa capa. É feia, genérica e não acho que passa a ideia do livro e nem mesmo desperta o interesse na leitura. Se eu não soubesse do que se trata, acreditaria que era algum livro chato de não ficção, o que eu acho uma pena, já que a obra deveria ser lida e chamar a atenção de todos.
Recomendo esse volume para todo mundo que se interesse por uma história um pouco mais pesada e reflexiva, que faz a gente pensar na sociedade de uma forma mais ampla e até mais cruel, que traz uma trama forte e envolvente, com personagens incríveis e bem reais. Apesar de esperar um pouco mais da protagonista e das suas motivações, esse livro com certeza me agradou e indico bastante a leitura.
Avaliação




2012 - A Era de Ouro - Carlos Torres & Sueli Zanquim

Dizer que o tempo passa rápido é soar clichê, a verdade é que só nos damos conta da passagem dele nas pequenas coisas. Quando você abre um livro que toda hora promete a si mesma que vai ler e já se passaram quase seis anos da compra dele. Sim quase seis anos para finalmente ler 2012 - A era de Ouro, dos autores Carlos Torres & Sueli Zanquim, publicado pela editora Madras.

Faz muitos anos que espiritualistas falam de novos tempos e mudanças planetárias. Para todo lado que olhamos vemos problemas e as vezes é difícil imaginar um mundo melhor, ou ainda encontrar seu local neste mundo onde a maldade ainda é forte. A partir de canalizações de Tania Resende os autores se propõem a analisar cada mensagem e expandir estes conceitos sobre mudança.

O livro é estruturado a partir das mensagens canalizadas, cada uma é posta com a referida foto do espírito, e posteriormente é comentada e explorada pelos autores, que vão desde as mensagens mais óbvias sobre comportamento humano até tópicos como sabedoria antiga no Egito.

Além de mestres ascencionados já conhecidos como Hilarion, El Morya, Saint Germain, Melquisedeque e Khuan Yin, temos entidades extraterrestres Rathal Zeh e Joahdi que transmitem mensagens muito interessantes. Muitas delas voltadas a época do de 2012, mas que ainda são atuais, visto que as mudanças planejadas ainda estão em processo. Ao final do livro cada um destes mestres tem suas fichas apresentadas, assim como um ótimo capítulo sobre Nikola Tesla.

2012 foi um momento de um novo começo no astral do planeta, muitos acreditaram que seria o fim dele, e talvez possamos dizer que de fato houveram fins, mas não em termos físicos. O que morreu foram alguns comportamentos, e nos dias de hoje cada vez mais vemos as pessoas como elas são, sem suas máscaras, pois elas não são mais capazes de serem colocadas. Cada um está mostrado ao que veio para Terra. Então 2012 marcou a mudança que começou a ser realizada no astral e que se reflete no dia a dia do ser humano. Isso ficou muito evidente agora na época das eleições, onde as pessoas se polarizaram em dois extremos e não conseguiram se esconder de suas opiniões.

Duas mensagens marcantes surgem ao longo de toda a trama, a primeira é a do amor próprio, não há como seguir em frente evoluindo sem que este se manifeste. Não há como amar ao próximo sem que você consiga olhar para si mesmo e se gostar, se cuidar e se querer bem. E a segunda mensagem é a do autoconhecimento.

O autoconhecimento é uma das chaves para a nova era, já que é só a partir de todo seu ser que você é capaz de evoluir, isto porque nenhum espírito espera que você seja perfeito, mas sim que você conheça suas limitações, medos e defeitos. Conhecendo sua própria sombra você é capaz de lutar contra as trevas, de a enxergar quando ela se aproxima, e transcender quando possível.


Um Acordo e Nada Mais - Clube dos Sobreviventes #02 - Mary Balogh

Vincent, o Visconde de Darleigh, é um jovem ex-soldado, que viveu o pior período de sua vida quando ficou cego e surdo na guerra por uma atitude que ele mesmo tomou. Depois disso, ele acabou ficando meio traumatizado e quase não teve um futuro, porém o Duque de Stanbrook lhe estendeu a mão e cuidou dele para que conseguisse superar seus traumas. Sua audição felizmente voltou, mas o mesmo não pode ser dito de sua visão. No entanto, agora Vincent vive uma vida normal, tem ótimos amigos, o Clube dos Sobreviventes, pessoas que vivenciaram coisas terríveis por conta da Guerra, uma família amorosa, um título novo e uma casa ainda melhor.
Sua família é bem unida e se preocupa com ele e seu futuro, então querem que ele arranje uma esposa. Por conta disso, arrumam uma pretendente nada bacana, o que faz com que Vincent decida fugir para não ficar preso num relacionamento horrível e ainda arrastar a moça consigo.  E é assim que ele se junta ao seu criado e foge para a casa de campo onde cresceu.
Nesse local, ele acaba ganhando bastante fama já que agora é um Visconde, então várias famílias de moças solteiras querem fazer com que ele se case com uma delas. Depois de sofrer uma nova emboscada e quase vivenciar uma situação “escandalosa” com uma delas, ele fica muito grato por ser salvo pela Srta. Sophia Fry, uma jovem desprezada e invisível, quase como um ratinho.
Por ter ajudado ele, Sophia acaba sendo expulsa da casa de seus tios com quem vivia por não ter pais, e se viu sem dinheiro, roupas, outros familiares ou um futuro. Ela não tem nada na vida e está bem desesperada, mas eis que surge Vincent com uma proposta tentadora: se casar com ele. Primeiramente, ela não quer aceitar, mas acaba sendo convencida de que essa é a melhor solução para o seu problema, enquanto ele vai se sentir aliviado porque foi indiretamente por sua culpa que ela acabou sem lar, e também porque pode tirar vantagens dessa união.
Com o passar do tempo, uma amizade vai surgindo e Sophia e Vincent acabam percebendo que pode haver mais sentimentos do que eles imaginariam. Mas será que vale a pena ter um relacionamento além do casamento ou eles devem seguir com seus sonhos pessoais de viverem felizes e sozinhos?
Mary Balogh vem sendo publicada há um tempo pela Editora Arqueiro. Até agora já foram lançados oito livros de sua autoria aqui no Brasil, sendo seis deles da sua série anterior (que já está completa), Os Bedwyns (tem resenha dos volumes aqui no blog, clique no título para ser redirecionado), e dois dessa nova, Clube dos Sobreviventes. Não li a primeira série da escritora, mas sempre ouvi tantas críticas positivas que queria conferir seu trabalho, afinal amo Romances de Época com todo o meu coração.
Então me aventurei nessas obras, nas quais cada história é protagonizada por um dos membros do “Clube dos Sobreviventes”, que se tornaram grandes amigos por terem sofrido muito com as consequências da guerra. Eles se reúnem quase todos os anos e possuem uma forte amizade, sendo que um sempre apoia o outro não importa o que aconteça. A premissa é bem bacana, mas até agora não fui conquistada por nenhuma das duas tramas. Mas acho que isso é algo bem pessoal meu, que gosto de histórias com um pouco mais do romance trabalhado, o que não aconteceu até o momento.
É química entre os protagonistas que você quer? Então aconselho que procure outro livro, porque infelizmente isso faltou aqui. O casal não tem nada de especial ou que tenha me feito suspirar, e nem combina. Pelo contrário, achei tudo tão morno que até demorei muito lendo o livro.
Acho que os dois têm personalidades muito semelhantes, o que poderia funcionar em alguns casos, mas aqui não funcionou para mim. Ambos eram muito calmos, muito contidos, não faziam o que queriam, não diziam o que pensavam, não tinham personalidades fortes ou ativas. Eles apenas estavam ali, apenas existiam e não se incomodavam com isso. Acho bacana quando há um personagem assim, mas acho que tanto um quanto o outro combinaria melhor com alguém complementar, alguém que o impulsionasse, que puxasse o melhor do outro e fizesse uma diferença significativa na outra vida. Fora que, por conta dessa apatia de ambos, rolava uma falta de diálogos relevantes entre os dois. Eles conversavam mais coisas banais do que assuntos interessantes, o que acabou sendo chato.
Por outro lado, a construção dos personagens é maravilhosa. A autora trabalhou muito bem com o passado dos protagonistas, com o que eles tiveram que lidar para chegarem aonde estão, o que fez com que eles sofressem tanto antes, que agora precisem lidar com os assombros e consequências do período anterior, etc.
Fora que tudo é bem realista em relação as personalidades deles. Eles sofrem e têm que lidar com sequelas emocionais resultantes de seus passados. Vincent tem ataques de pânico porque agora é cego, porque já viu a cor e as coisas com seus próprios olhos anteriormente, mas agora não tem mais oportunidade, ele sofre em alguns momentos quando percebe que tudo ao seu redor é preto e vai continuar sendo. Foi bem emocionante e também deu para sentir seu terror, suas emoções, quando ele vivenciava esses ataques e esses pensamentos aterrorizantes.
Enquanto Sophia (que até agora eu não tenho certeza se na verdade se chama Sophie, porque havia uma variação dos dois nomes o tempo inteiro) perdeu ambos os pais quando jovem, e foi morar com uma tia que a negligenciava, até que esta morreu e foi enviada para outra que fazia o mesmo e assim por diante. Ela nunca foi querida em lugar nenhum e sua primeira paixão também não foi nada bacana, já que o rapaz, que era seu familiar, fez com que ela se sentisse péssima, feia e sem graça, como se nunca pudesse ter a chance de alguém gostar dela. Então ela sofre com bullying e memórias do passado até hoje, fazendo com que sempre fique escondida e quase invisível.
A narrativa da autora é leve, mas também tem pontos dramáticos intensos e uma carga emocional bem trabalhada, como comentei acima. Porém, o pano de fundo do casamento e da aceitação de um Visconde, que a princípio nem mesmo queria se casar e depois escolheu uma garota aleatória sem paixão, amizade, família influente ou dinheiro para contrair matrimônio bem rapidamente, por seus amigos e familiares, foi sem sentido, meio fantasioso e apressado demais na minha opinião.