A Revolução dos Bichos: Em Quadrinhos - George Orwell & Odyr

Os animais que residiam na Granja do Solar começaram a ficar cansados da exploração e dos maus tratos que sofriam pelo humano que controlava o lugar. Para transpassar este problema, decidiram se rebelar contra o dono da fazenda e tomá-la com o objetivo de instituir um novo sistema cooperativo e igualitário no local. Com o novo lema “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, eles têm como objetivos encontrar o melhor para todos.
Porém, depois de algum tempo, os porcos, considerados os bichos mais inteligentes, começam a perceber que podem ter alguma vantagem e por conta disso passam a querer usufruir de mais privilégios, controlando as coisas e tomando suas próprias decisões, baseados no que acham melhor para si. E é assim que, aos poucos, começam a construir um novo sistema de opressão e controle, ainda pior do que o anterior. Muitos animais não entendem muito o que está acontecendo e os que percebem acabam sendo silenciados à força. E é assim que uma nova tirania é instalada no local, mais opressiva, mais sangrenta e com menos sentimentos de esperanças.
Devo começar essa resenha confessando que eu nunca li “A Revolução dos Bichos” na edição normal, ou seja, a história completa criada por George Orwell. Porém, já vi várias pessoas comentando a respeito de seus livros, das críticas que ele faz em suas histórias e de quão importantes elas são. Dito isso, devo dizer que já tinha curiosidade de ler todas as suas obras, inclusive essa em específico, mas acabei enrolando e nunca lendo de fato. Até que a Companhia das Letras, pelo selo Quadrinhos na Cia., resolveu publicar uma edição maravilhosa em quadrinhos adaptada e ilustrada por um artista nacional, o Odyr. Eu fiquei completamente apaixonada por seu trabalho e logo decidi que deveria conhecer essa obra sob sua perspectiva, e foi o que fiz.
É claro que uma edição adaptada nunca é igual a sua original, porém, mesmo sem ter lido essa, acredito que Odyr fez um ótimo trabalho com a adaptação, já que li resenhas de outras pessoas da obra completa e acho que ele conseguiu passar toda a essência de lá para cá, tanto através do texto quanto das ilustrações, só a apresentando de uma forma mais direta e visual, o que eu particularmente adoro. E no futuro também vou ler a edição completa em prosa, mas já fiquei feliz de ter conhecido essa história.
Um dos pontos mais importantes que podemos perceber nessa leitura é a crítica a regimes totalitários que Orwell fez. E fazendo uma análise maior, podemos perceber que não se restringe apenas a governos, mas também qualquer grupo de pessoas que possui um líder cujo objetivo não é a liberdade ou o melhor para todos, mas, sim, algo específico que restringe muitos com a intenção de chegar a um resultado que supostamente seria o melhor para todos, mas que na realidade só é bom para uma minoria.
"Todos os bichos são iguais, mas alguns bichos são mais iguais que outros"
De qualquer forma, aqui em sua obra ele estava fazendo uma sátira especificamente contra a URSS ou, na verdade, contra os discursos e ações de Stálin no período da mesma. Inclusive seus personagens foram baseados diretamente nele e em outros líderes daquele momento. Para Orwell, o discurso socialista dele acabou criando suas próprias direções, mais voltada para a tirania do que para o bem do coletivo. E, através de mentiras, opressões, informações manipuladas e abuso de poder, ele acabava controlando a população, fazendo com que o que parecia ser algo melhor, na verdade voltasse quase ao que era antes, mas de forma ainda pior e mais opressiva.
“O que este livro nos diz é que aqueles que renunciam à liberdade em troca de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra”. Essa frase, de Christopher Hitchens, que, inclusive pode ser encontrada na própria orelha dessa edição, é um ótimo resumo sobre o que Orwell nos passou com sua história.
Acho que também podemos dizer que existe uma crítica ao poder, a sociedade, e também ao comportamento do ser humano que, de acordo com o que é mais vantajoso para si mesmo, acaba usufruindo desse poder e abusando do mesmo. Também dá para notar que com alienação e manipulação o controle acaba encontrando seu caminho, e as pessoas só percebem o que está acontecendo quando já é tarde e eles precisam encontrar alguém para substituir essa pessoa do topo, mas a próxima vai acabar tendo ações semelhantes, ainda que as motivações primárias sejam diferentes. E tudo isso acaba se tornando um ciclo, e assim segue repetidamente.
“As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível dizer qual era qual.”
O final não é positivo ou inspirador. Pelo contrário, é apenas real e mostra que, por mais que o sentimento geral seja de revolução e mudanças, os poucos que estão no poder sempre acabam agindo de forma semelhante a seus antecessores. É, ao mesmo tempo, um chute no estômago saber que por mais que a gente tente, dificilmente vamos ver mudanças realmente significativas no cenário. Mas nem por isso vamos desistir de tentar e de lutar.
As ilustrações são um caso à parte e uma das coisas que mais chamam a atenção nessa edição. Eu amo desenhos feitos em tinta acrílica e acho que o artista conseguiu traduzir o texto em imagens muito bem e de forma belíssima. Amei as pinceladas, as expressões nas caras dos animais, os cenários retratados e as cores. Ficou tudo tão bem feito que parece que o livro foi originalmente escrito nesse formato e com essas ilustrações.
A edição impressa é bem grande e tem o tamanho diferenciado de 26,6 cm x 20,2 cm, título e nome do autor e ilustrador com acabamento vermelho metálico, páginas brancas, grossas e com alta qualidade de impressão, ilustrações maravilhosas e bem coloridas, e diagramação bem confortável para a leitura.
“A Revolução dos Bichos” definitivamente é uma obra que deveria ser lida por todas as pessoas do mundo, já que consegue apresentar de forma direta, fácil e muito inteligente, uma realidade que muitas pessoas e países enfrentam e/ou podem vir a enfrentar num futuro não muito distante. Essa fábula escrita por George Orwell e lindamente ilustrada por Odyr com certeza consegue cumprir seu objetivo de fazer com que seus leitores possam refletir sobre o comportamento humano, líderes opressivos e falsas promessas e, quem sabe, inspirar um pouco do mundo a ler nas entrelinhas e nunca deixar de lutar.
Avaliação





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2 comentários:

  1. Já ouvi falar muito desse livro e sou doido pra ler, infelizmente nem o livro eu tenho :(
    Mas com certeza vai ser uma leitura que farei, não sei quando mas vou ler...rsrs
    as vezes um final que não seja feliz nem inspirador é até bom, foge do clichê de que toda historia tem um final feliz e sabemos que não é bem assim né.

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  2. Olá! Tenho bastante curiosidade em ler esse livro, ele sempre está em alguma lista de livros que todo mundo deveria ler, parece ser bem interessante essa versão em quadrinhos.
    Bjs

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