O País dos Cegos e Outras Histórias - H. G. Wells


É extremamente gratificante ler um segundo livro de um autor que você gostou e continuar gostando dele, já que não tem nada mais chato do que se decepcionar com alguém, mesmo que seja um autor. H. G. Wells não se tornou um autor clássico do fantástico e da ficção científica a toa, em seu livro de contos O país dos Cegos e outras histórias, publicado pela Alfaguara, o autor mostra que seu talento não se limita a uma única obra.

O volume em questão possui dezoito contos do autor publicado ao longo de sua carreira, muitas vezes em revistas e jornais, o que era comum na época, e cá entre nós podia voltar a ser comum, seria bem melhor do que boa parte do que é publicado hoje me dia! Todos os contos estão dentro do gênero fantástico ou da ficção científica. Alguns eu gostei muito, outros a temática não chamou muito a minha atenção, mas do ponto de vista da narrativa e da criatividade o autor é genial.

Primeiro suas ideias são muito criativas, a partir de uma estória simples e cotidiana ele consegue desenvolver um conto que envolve. No prefácio descobrimos que Wells tinha como intenção quando criava contos seu objetivo que estes fossem lidos rapidamente, em no máximo cinquenta minutos, e ele foi feliz em seu objetivo. O conto mais longo O País dos Cegos que é o maior não ultrapassa esse tempo, e é o maior destaque do livro.

Nele acompanhamos um explorador que acaba depois de um acidente em um vale onde todos os moradores são cegos. Vendo que era o único que enxergava ele viu a oportunidade de ser o líder, já que para ele quem enxerga em terra de cego é rei. O que ele não fazia ideia é que essa frase nunca esteve mais longe da verdade. Sem muitas alegorias, com fatos diretos o conto é repleto de reflexões e pensamentos a cerca da natureza humana e da construção de crença e sociedade humana. E é fácil fazer paralelos com nosso atual momento político de tão contemporânea que soa a estória. Alias é muito interessante como o autor é familiarizado com a natureza humana a ponto de chegar ser até profético em diversos de seus contos.

Em A Estrela ele narra de forma desinteressada o que aconteceria se de repente descobrissem que uma colisão de planetas resultasse em danos para Terra. E o grande destaque aqui é no fim quando descobrimos do ponto de vista de quem a narrativa acontece. E quanto em nossa vida nos colocamos no lugar do expectador que não compreende a dimensão do problema do outro, quantas vezes minimizamos o problema alheio.

Outro que despertou atenção foi A História do Falecido Sr. Elvesham, onde um jovem recebe o convite para se tornar o herdeiro de um filósofo rico que já está muito doente. É triste e angustiante quando aos poucos fica muito claro onde o conto vai terminar, a narrativa segue o estilo Amazing Stories (um antigo seriado de estórias do gênero que passava nas madrugadas da globo). A Loja Mágica é outro que segue esse estilo, é um conto simples e lúdico em uma loja em uma rua em Londres que só abre suas portas para crianças merecedoras.

Explorando a teoria darwinista O Império das Formigas narra o que aconteceria se as formigas dessem um passo a diante na evolução, e passassem a ser mais inteligentes. Já O Ovo de Cristal é uma narrativa inusitada de um ovo de cristal que liga dois lugares diferentes, e outro lugar é que a grande surpresa! Muito criativa eu jamais pensaria em algo como ele estruturou!

Mesmo sem conhecer sobre o que seria a física quântica de hoje Wells foi capaz de um conto, O Estranho Caso dos Olhos de Davidson, onde trabalhou com outras dimensões, mas ainda na própria Terra. Quem lê pensa que ele sabia de tudo que hoje é teorizado pela física! A História de Plattner também segue nesse estilo quando um professor depois de uma explosão na aula de química desaparece. Ele vai parar em outra dimensão, mas diferente do anterior, aqui ele tem encontro com criaturas similares a fantasmas humanos. Neste conto é muito evidente uma característica do autor de contar suas estórias com um tom jornalístico, de alguém que soube através de alguém da estória e não a viveu.

A Marca do Polegar fala sobre testes de digitais para o encontro de um criminoso, o detalhe é que na época isso ainda não era efetivamente usado. Anterior a Conan Doyle, nosso detetive aqui é um professor de química, que vê a casa na frente de seu laboratório explodir por atentado anarquista (muito comum na época em que o conto foi escrito). Com a solução em mãos ele chega até seu alunos e destrincha a trama do crime.

Na linha de criaturas estranhas O Desabrochar da Estranha orquídea, narra um acidente estranho com uma orquídea desconhecida. Em Invasores do Mar essas criaturas parecem polvos, e são vistas como lendas.  Já em A Ilha dos Epiórnis um explorador acaba perdido em uma ilha com um ovo pré-histórico que nasce, dele uma criatura antiga torna-se sua companheira. O livro termina com um conto em cima da criação do Taj-Mahal, que mostra quanto o ser humano cria suas obras apenas para si mesmos. É sobre o ego e sobre quando seus princípios se perdem.

O País dos Cegos e outras Histórias é um livro repleto de aventuras, boas estórias e qualidade. Wells era um homem a frente do tempo, tanto do ponto de visto científico quanto do comportamento humano. É inspiração para quem quer ver como são escrito bons contos e boas ideais, curtas ou mais longas, realistas ou totalmente surrealistas, com sua narrativa simples mas sincera, é acessível a todos que gostam de uma boa e velha estória, sem dispensar a crítica e a reflexão a cerca do mundo que nos cerca!

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