O Escravo de Capela - Marcos DeBrito

Quando eu estava no colegial eu tive o privilégio de ler o livro Casa Grande Senzala inteirinho, com isso pude ver a escravidão além das poucas linhas que os livros de História descrevem, e ir além do lugar comum. Com este background a leitura de O Escravo de Capela, do autor Marcos DeBrito, publicado pela Faro Editorial, foi como ver a história ganhando ares fantásticos!

No Brasil Colônia, a fazenda de Capela recebe um novo lote de escravos, e entre eles Sabola, um jovem que não compreendia a língua de seus senhores e o prazer dos mesmos em fazer sofrer seus semelhantes. Depois de uma reprimenda Sabola decide que vai fugir, e conta com a ajuda de um velho escravo da fazenda. Mas nem tudo sai como o esperado, e com sua morte prematura outros forças desconhecidas pelos brasileiros vai nascer, e com ela uma lenda que vai permanecer.

DeBrito narra sua estória em terceira pessoa sob diversos pontos de vistas, ora de Sabola no início da trama, ora de algum dos filhos do dono da fazenda, ora de alguns de seus funcionários, nos permitindo assim uma visão completa e de conjunto de todos os aspectos e personagens envolvidos na narrativa. Tudo é muito bem amarrado tanto na linha do tempo, quanto nas explicações dos fatos.

A proposta do autor era criar uma estória crível, o mais próxima de uma realidade que fosse a origem da lenda do saci- pererê, utilizando todas as suas características e referências originais, e seu objetivo foi alcançado com sucesso, pois de fato encontramos todas as principais características no livro, desde a crina dos cavalos trançados, até o seu famoso cachimbo. Tudo de uma maneira natural, sem que seja necessário abrir mão da realidade.

Sabola é o nosso protagonista que veio da África como escravo, embora seja inocente não aceita viver como escravo, e nem sequer consegue compreender essa concepção de vida. Muito impulsivo ele não quer aguardar um dia sequer para alcançar a liberdade, e é extremista em suas ações para alcançar seu objetivo. Quando renasce como morto-vivo perde todos os traços de sua antiga vida, e suas ações não são decididas por sua vontade.

Akili é um antigo escravo que não sai da senzala depois de um episódio com Antônio, um dos herdeiros da fazenda. Tem uma atmosfera de mistério sob si, e parece esconder mais do que aparenta. Sua ajuda é fundamental na tentativa de fuga de Sabola, mas sua importância só explicada no fim da trama.

Inácio é o herdeiro mais jovem, médico formado em Portugal está na fazenda apenas enquanto não se transfere para Londres, onde quer estabelecer sua nova vida. É o oposto de seu irmão, e seu pensamento quanto aos escravos é diferente de todos os homens a sua volta. Assim ele é mal compreendido, e entra em conflito com o pai e o irmão constantemente. Sua sensibilidade para com a vida é ainda um pensamento novo nas terras brasileiras, e ele não possui o machismo dominante na região.

Quando comento sobre machismo, não o falo sobre o ponto de vista de colocar a mulher como sexo inferior (embora até deva ser o pensamento da época, mas ele não é explorado), mas sim do pensamento que homens devem agir de determinadas maneiras, e ter determinados pensamentos e sentimentos (falta deles), que no caso são de aplicar punições aos escravos que não agirem como esperado não os vendo como humanos mais sim como animais;  herdar o trabalho da família; aliviar suas tensões com uma escrava comprada para isso; beber e agir de modo agressivo, enfim manter o status quo da época marcada pela ignorância.

Batista é o pai dos jovens. Principal responsável pela manutenção do modo agressivo do filho mais velho, embora ame seus filhos age de modo antiquado em suas relações. Até tenta compreender os pensamentos novos de Inácio, mas quando um escravo sai da linha defende o castigo, e só não permite muitas mortes porque também geram perdas de dinheiro. É orgulhoso e prepotente, e é incapaz de acreditar no que está acontecendo na sua fazenda, e quando acredita já é tarde demais.

Antônio, o filho mais velho é aquele personagem que causa repulsa já que ele é agressivo com seu irmão mais novo, com seus funcionários, e cruel com os escravos pelo simples prazer de os ver sofrer. Em nenhum momento desperta empatia, e devo dizer que acabamos por querer seu sofrimento!
DeBrito consegue nos fazer torcer pela vingança de Sabola, depois da tortura e morte que ele teve acabamos por torcer pelo fim da fazenda, e pela liberdade dos escravos. E estar do lado de quem causa a morte é um novo ângulo como leitora. Existe sim muito sangue, mas o autor consegue descrever de modo respeitoso e direto todos os crimes sem causar repulsa ou aflição, tudo soa natural e fluído, e não simplesmente um monte de mortes sem sentido. Temos crueldade sim, mas também uma estória a ser contada que pode muito bem ter acontecido em um canavial.

O desfecho do livro é excelente, e é quando todas as linhas são explicadas e ligadas de uma forma muito original. Durante toda a leitura eu me perguntava se era simplesmente uma morte atrás da outra até que todos acabassem, mas não, existe muito além disso, e é surpreendente!

O Escravo de Capela é um retrato do Brasil Colônia ao mesmo tempo que evoca uma das lendas mais interessantes de nosso país. É um misto de real e fantástico, de sombras e esperança, que nos reforça quanto por mais legítima que seja sua sede de sangue ao final a vingança acaba apenas por envenenar o coração e fazer a mente perder sua razão de ser. Leiam, mas tomem cuidado com quem espreita em suas janelas a noite!

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